- 8 de maio de 2026
Manejo da água de lastro dos navios pode virar uma ameaça silenciosa em plena Baía de Guajará
Em Belém, onde o rio encontra o mar, aqui na frente da cidade mesmo, onde está situado um dos ecossistemas mais complexos do planeta, há uma ameaça silenciosa chegando pelos navios que cruzam o mundo em nossa direção. É a água de lastro, produto essencial para a navegação. Ela carrega também bilhões de organismos microscópicos que, ao serem despejados, podem alterar profundamente o equilíbrio ambiental da região.
A água de lastro é a água captada diretamente do mar e armazenada em tanques, nos porões dos navios, para garantir estabilidade, equilíbrio e segurança às embarcações, principalmente quando estão sem carga. A norma que regulamenta o gerenciamento, a troca e o descarte da água de lastro no Brasil é a Normam-20/DPC (Normas de Autoridade Marítima para o Gerenciamento da Água de Lastro de Navios), fiscalizada pela Capitania dos Portos da Marinha e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A prática de troca de água de lastro em alto-mar, exigida por normas internacionais, tenta conter esse risco. Parece tudo muito distante de quem está com os pés no chão, mas não é. Especialistas alertam que, mesmo com regras em vigor, o avanço de espécies exóticas contidas na água de lastro já é uma realidade em diversas partes do Brasil, e o estuário amazônico é considerado uma área especialmente vulnerável.
O motivo é simples. A região de Belém funciona como uma porta de entrada natural para as chamadas espécies invasoras. A mistura de águas doces e salgadas cria condições ideais para a adaptação de organismos vindos de diferentes partes do mundo. Uma vez estabelecidas, essas espécies podem se espalhar rapidamente pelos rios da Amazônia, afetando manguezais, comunidades ribeirinhas e cadeias produtivas locais.
A principal ameaça, portanto, é a de um desequilíbrio ecológico drástico, pois organismos como bactérias, algas e até pequenos invertebrados contidos na água de lastro frequentemente não possuem predadores naturais na região, o que permite sua reprodução descontrolada. Espécies invasoras podem dizimar espécies nativas, causar danos à pesca local e até obstruir infraestruturas industriais e de saneamento, gerando prejuízos econômicos.
Além disso, a água de lastro pode transportar patógenos perigosos de outras partes do mundo. Entre os riscos citados por especialistas e órgãos como o Ministério do Meio Ambiente e a Marinha, destaca-se a bactéria da cólera (vibrio cholerae).
Prejuízos em cadeia
Casos como o do mexilhão-dourado, que se disseminou por hidrovias sul-americanas, acenderam o alerta. No ambiente amazônico, impactos semelhantes poderiam prejudicar a pesca, atividade essencial para milhares de famílias paraenses. Mais de 400 mil pessoas estão envolvidas na cadeia produtiva da pesca no Pará, incluindo artesanal e industrial. Além disso, esses impactos podem causar danos à biodiversidade que sustenta o turismo e a própria identidade cultural da região.
Outro ponto de preocupação é o potencial de desequilíbrio ecológico. Espécies invasoras podem competir com organismos nativos, alterar cadeias alimentares e até introduzir doenças. Em um sistema tão interligado quanto o amazônico, os efeitos tendem a se multiplicar rapidamente.
Estudos vinculados ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) destacam que o controle da água de lastro é apenas parte da solução. O aumento do fluxo de navios, impulsionado pelo comércio global e pela importância estratégica da Amazônia, eleva continuamente o risco. Tecnologias de tratamento da água a bordo surgem como alternativa mais eficaz, mas ainda enfrentam desafios de custo e implementação.
Para Belém e todo o Pará, o tema vai além da questão ambiental. Trata-se também de segurança econômica e social. Proteger o estuário amazônico significa preservar modos de vida, garantir recursos naturais e evitar prejuízos que podem ser difíceis de reverter. Discreta e invisível, a ameaça viaja nos porões dos navios e, quando finalmente se revela, pode já ter transformado para sempre as águas que sustentam a vida na nossa região.