• 8 de maio de 2026

Emmanuel Nassar: o traçado universal de um nortista insurgente

Nailana Thiely

O artista plástico Emmanuel Nassar não apenas pinta: ele resiste. Como se fosse um Odisseu à deriva entre as cores tropicais e os signos da cultura de massa, sua obra transpõe fronteiras. Vai da Amazônia às grandes capitais do mundo da arte, com a mesma audácia com que Ulisses enfrentou sereias e ciclopes. Nassar, contudo, prefere as esquinas urbanas, a pulsação das bandeiras de açaí nos subúrbios e o geometrismo vibrante que grita nas baixadas de Belém e do Brasil. Um verdadeiro léxico visual, tão popular quanto profundo.

Nascido em 1949 no município paraense de Capanema, Nassar é um arquiteto de formas, um publicitário da cor e um teórico de gambiarras. Não no sentido pejorativo, mas como genius loci de uma estética que confunde e converte. Capaz de decifrar o “espírito do lugar” para onde olha, colhendo dali a atmosfera, identidade e caráter. 

Estudou arquitetura na Universidade Federal do Pará (UFPA), lecionou arte e construiu uma obra que se alimenta tanto da racionalidade construtiva quanto da potência exagerada da cultura visual de massa. “Arte é o exercício ilegal de todas as profissões”, disse ele uma vez, e quem o acompanha percebe que essa lei subversiva é sua verdadeira matéria-prima. 

Como ele é um poeta dos conflitos urbanos enxergados de forma única, olhar um trabalho de Nassar é como adentrar um labirinto pop onde Mondrian, um dos pioneiros da arte abstrata, poderia dançar com os ícones de uma feira de Belém, em meio às barraquinhas de pupunhas.

As cores são vibrantes como o mercado do Ver‑o‑Peso ao amanhecer. Os blocos geométricos lembram o construtivismo russo e, ao mesmo tempo, estilhaçam qualquer hierarquia formal que separe alto e baixo. Nassar, no entanto, não se limita ao colorido: ele o compõe e o decompõe, confrontando o espectador com o estranhamento da familiaridade.

Em obras como Exquadro (2012), agora parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), percebemos esse cruzamento. Uma mão arquitetônica que remete ao esquadro, ferramenta de medir, mas que aqui sugere movimento, gesto, passagem, a bem dizer praticamente um convite a desmontar categorias.

Mas não pense que Nassar se perdeu na abstração. A sua pintura suburbana, popular e sinestésica nunca abandona a sensação do cotidiano. 

Em Lataria Espacial, vista no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP), um avião de aço galvanizado, metafórico e literal, ironiza a estratificação social e o sonho moderno de voar, ao mesmo tempo em que dialoga com a ficção científica e o ardil popular, esse savoir‑faire das soluções criativas que inventam beleza na precariedade.

Do Pará para o mundo

A trajetória de Nassar não é obra de acaso. Ele é um homem que viu no regional uma alavanca para o universal. Participou de edições históricas da Bienal de São Paulo (1989 e 1998), representou o Brasil na Bienal de Veneza (1993) e ganhou o prêmio máximo na 6ª Bienal de Cuenca, no Equador, com sua obra Incêndio em 1999, um troféu que não apenas reforça sua presença internacional, mas confirma o cruzamento político de ideias que sua arte protagoniza.

Retrospectivas em instituições como a Pinacoteca de São Paulo e o próprio MAM SP, além de exposições individuais recentes como EN2023 na Galeria Millan e Este Norte 2025 na Almeida & Dale, traçam uma trajetória sólida, despreocupada com modismos e profundamente ancorada numa poética que recusa ser domesticada pelo mercado.

Em 2026, Nassar retornou a Belém em grande estilo, com a exposição individual Meu Tema Sou Eu no Centro Cultural Bienal das Amazônias (CCBA), inaugurada em março, sob a curadoria de Vânia Leal. A mostra, sua primeira grande individual na cidade após uma década, reúne 55 obras, entre produções recentes, instalações e criações históricas, oferecendo um panorama íntimo e expressivo de sua trajetória. 

É como se Nassar, finalmente, pudesse conversar novamente com a cidade natal, trocando olhares e cores com o pulsar da Amazônia urbana que tanto inspira sua obra.

Metamorfoses e contradições

Há quem encontre em Nassar algo que remete a Carl Gustav Jung, não pela psicologia analítica em si, mas pelo modo como símbolos coletivos e arquétipos populares se entrelaçam em narrativas visuais que nos dizem mais sobre nós mesmos do que gostaríamos de admitir.

Ele também dialoga, com ironia e urgência, com a tradição pop americana tanto quanto com as especulações do concretismo brasileiro. É como se Lichtenstein e Volpi, dois dos pintores mais influentes do século XX, mesmo atuando em contextos e geografias diferentes, tivessem uma conversa profunda no centro de Belém, às seis da manhã, sob um túnel de mangueiras. Dali brotaria, com certeza, um autêntico Emmanuel Nassar.

Emmanuel consegue ir além das artes plásticas. Ele é um construtor de pontes, um cartógrafo de contradições e um artesão do universal nascido do particular. Sua pintura suburbana é criada por mãos que conhecem tanto a tinta quanto a lona de feira. Com a cidade novamente testemunhando sua obra, ele reafirma sua presença como parte indelével do repertório da arte contemporânea. Que suas cores, ironias e formas continuem a voar alto. Desafiando a relação entre centro e periferia. Entre popular e culto. Sonho e realidade.

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