- 9 de maio de 2026
Funpapa chega aos 60 anos com crise, denúncias de abandono e pressão envolvendo a ‘república de Pernambuco’ da gestão Igor Normando
Os 60 anos da Fundação Papa João XXIII (Funpapa), celebrados na sexta-feira (8), foram marcados não por homenagens institucionais, mas por um protesto de servidores e representantes sindicais contra o que classificam como abandono da assistência social em Belém. O ato, realizado na Praça do Operário, em São Brás, reuniu trabalhadores indignados com a precarização das unidades, falta de estrutura básica e denúncias de esvaziamento da política pública voltada à população mais vulnerável da capital.
Com faixas afirmando que “Funpapa é direito, não é favor” e “Fechar a Funpapa é crime contra o povo”, os manifestantes denunciaram problemas como infiltrações no prédio, ausência de materiais, falta de coordenação em unidades, escassez de veículos para visitas sociais e até inexistência de itens básicos para atendimento nos CRAS e CREAS. Segundo relatos de servidores, a situação compromete diretamente o atendimento à população pobre e amplia o adoecimento dos trabalhadores.
As críticas também atingem diretamente a atual gestão da fundação, presidida por Edna Gomes da Silva, política pernambucana ligada ao grupo político de Lula Cabral, pai da primeira-dama Fabíola Cabral. Nos bastidores da assistência social, servidores e representantes sindicais afirmam que Edna teria chegado à Funpapa sem conhecimento profundo da realidade de Belém e sem experiência reconhecida na estrutura histórica da fundação. Para parte dos trabalhadores, o órgão estaria passando por um processo de “implosão administrativa”.
República pernambucana
A presença de nomes ligados ao núcleo político pernambucano próximo à primeira-dama tem ampliado o debate público sobre critérios de nomeação dentro da gestão Igor Normando. O tema ganhou força após episódio envolvendo Fillipe Luís Cabral da Rocha, conhecido como “Filipinho”, apontado por veículos de imprensa como primo de Fabíola Cabral e nomeado para diferentes cargos estratégicos na prefeitura, três vezes seguidas. A situação levantou questionamentos sobre possível favorecimento político e influência de grupos externos na administração municipal.
Embora a origem geográfica de integrantes da gestão não deva servir como combustível para preconceitos ou ataques regionais, cresce em Belém a cobrança por transparência, critérios técnicos claros e valorização dos profissionais paraenses. Especialmente, pelos gargalos da gestão nunca resolvidos.
O Pará possui tradição administrativa, intelectual e técnica própria, formada por servidores e especialistas que conhecem profundamente os desafios sociais e urbanos da Amazônia. Por isso, setores da sociedade questionam se funções estratégicas estão sendo preenchidas prioritariamente por vínculos de confiança política, ou até favorecimento, em vez de experiência acumulada no próprio estado.
Além de Edna Gomes e Fillipe Cabral, também se aponta a influência indireta de Lula Cabral no entorno do governo municipal, apesar de ele não ocupar cargo oficial na prefeitura. A presença de assessores e aliados vindos do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, aumentou as críticas sobre possível centralização política em torno do núcleo familiar da primeira-dama.
Deterioração assistencial
No centro da crise está justamente a Funpapa, um dos órgãos mais sensíveis da estrutura pública municipal, responsável por atender famílias em situação extrema de vulnerabilidade social. Servidores denunciam que desde 2025 faltam inclusive cestas básicas para distribuição à população atendida. Para os trabalhadores, a deterioração da assistência social revela não apenas problemas administrativos, mas um modelo de gestão distante da realidade da cidade.
A Prefeitura de Belém afirma que mantém diálogo com os servidores e que busca fortalecer a rede socioassistencial “dentro da realidade orçamentária do município”. No entanto, o cenário exposto pelos próprios trabalhadores no aniversário de 60 anos da fundação evidencia uma gestão pressionada por denúncias, desgaste político e perda de confiança dentro de um dos setores mais estratégicos da administração pública.
A crise da Funpapa ultrapassa a disputa política. O que está em jogo é a capacidade da Prefeitura de Belém de garantir dignidade à população mais pobre da cidade. E, diante das denúncias de abandono, influência política e falta de transparência, cresce a percepção de que quem deveria não está cuidando da assistência social de Belém.