- 8 de maio de 2026
Novo Desenrola mira trabalhadores informais e expõe ferida aberta da economia de Belém
A nova expansão do programa Desenrola Brasil, anunciada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve atingir em cheio uma das capitais mais vulneráveis do país: Belém. Ao afirmar que o governo prepara uma linha voltada para trabalhadores informais e pessoas que mantêm as contas em dia, mas sofrem com juros elevados, Durigan colocou luz sobre uma realidade histórica da Amazônia urbana. Aqui, milhares de pessoas vivem sem carteira assinada, renda fixa ou acesso saudável ao crédito. Ou seja: o que não falta é gente “enrolada”.
Dados do Mapa da Inadimplência da Serasa mostram que o estado do Pará fechou 2025 com 2,9 milhões de inadimplentes, o equivalente a 46,4% da população adulta paraense. Em apenas um ano, houve crescimento de 10,6% no número de pessoas com contas atrasadas. A maior parte das dívidas está ligada justamente aos bancos e cartões de crédito, os setores que mais cobram juros altos e a prevalência dos devedores ocorre em Belém.
A situação é delicada na capital. A informalidade domina grande parte da economia urbana. Camelôs, vendedores ambulantes, mototaxistas, diaristas e trabalhadores por aplicativo formam um contingente crescente de pessoas que sobrevivem sem estabilidade financeira. Sem holerite, sem garantia de renda mensal, sem apoio da Prefeitura de Belém e frequentemente fora do radar bancário tradicional, essas pessoas acabam recorrendo ao crédito mais caro do mercado.
Foi exatamente esse perfil que Durigan descreveu ao justificar a nova etapa do programa. Segundo o ministro, o trabalhador informal “é quem mais toma juros caros no país”, porque vive de uma renda irregular e sem histórico formal de recebimento.
O problema se agrava num cenário nacional já pressionado. A Serasa estima que o Brasil ultrapassou a marca de 79 milhões de inadimplentes em 2025, um recorde histórico. O desemprego, a inflação acumulada nos alimentos e o crédito caro aparecem entre os principais fatores do endividamento das famílias brasileiras.
Em Belém, a crise ganha contornos ainda mais profundos porque se mistura à precarização do trabalho, que tem se agravado na atual gestão. Em muitos bairros periféricos de Belém, renegociar dívidas deixou de ser apenas uma tentativa de limpar o nome: virou condição de sobrevivência. Há famílias inteiras dependendo de empréstimos rotativos, limite do cartão ou crediário para comprar comida, pagar contas básicas e até reorganizar a casa atingida pelas frequentes enchentes em dias de chuvas.
A promessa do novo Desenrola surge, portanto, como uma tentativa de alcançar brasileiros historicamente excluídos do sistema financeiro formal. Mas o tamanho do desafio em Belém revela algo maior. O problema já não é apenas a dívida. É a ausência de renda estável em uma cidade onde trabalhar não significa, necessariamente, conseguir sair do vermelho.