• 27 de maio de 2026

OMS declara emergência internacional por surto de Ebola na RDC e em Uganda; risco para o Brasil segue baixo

Foto: CREMERJ Nwes

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional o surto de Ebola causado pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo e em Uganda. A medida busca ampliar a cooperação entre países, acelerar o envio de equipes e insumos às áreas afetadas e reforçar a vigilância epidemiológica para conter a disseminação da doença na origem.

Apesar da gravidade do cenário nos países com circulação ativa do vírus, especialistas afirmam que não há motivo para pânico no Brasil. O risco para a população brasileira é considerado baixo, sobretudo para pessoas que não viajaram recentemente para regiões afetadas pelo surto.

Segundo Silvia Nunes Szente Fonseca, médica infectologista e professora do IDOMED (Instituto de Educação Médica), a decisão da OMS deve ser entendida como uma estratégia internacional de prevenção e resposta rápida. “Quando a OMS declara uma emergência desse tipo, o objetivo é mobilizar recursos, equipes e vigilância para controlar o surto onde ele está acontecendo. Isso não significa que exista uma ameaça direta à rotina da população brasileira. O mais importante é acompanhar informações oficiais e evitar interpretações alarmistas”, explica.

Diferentemente de doenças respiratórias, como influenza e Covid-19, o Ebola não é transmitido pelo ar. A contaminação ocorre principalmente por contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas e sintomáticas, além de objetos e materiais contaminados. Por isso, as principais orientações são direcionadas a pessoas que viajaram ou pretendem viajar para áreas com transmissão ativa. Especialistas recomendam evitar contato com indivíduos doentes, animais silvestres, especialmente morcegos e primatas, e situações consideradas de risco, como rituais fúnebres que envolvam contato direto com corpos. Também é importante procurar atendimento médico caso surjam sintomas após retorno de regiões afetadas.

Para quem não esteve em áreas de surto, não há recomendação de mudança de rotina. Medidas básicas de higiene, atenção a sintomas após viagens internacionais e acompanhamento de informações em canais oficiais seguem como as principais orientações.

“A melhor forma de prevenção, neste momento, é a informação correta. Não há razão para pânico, fechamento de atividades ou mudança de hábitos da população que não teve exposição a áreas de risco. O cuidado especial é para viajantes e profissionais que atuam diretamente em regiões afetadas. Para o público em geral, a recomendação é manter a calma e acompanhar os comunicados de fontes oficiais”, orienta Silvia.

Transmissão exige contato direto

A professora de Biomedicina da Wyden, Rita Valente, reforça que o tipo de transmissão do Ebola ajuda a explicar o baixo risco para a população brasileira.

“O Ebola não se comporta como um vírus respiratório. Ele não é transmitido pelo ar em situações cotidianas, como estar no mesmo ambiente ou cruzar com uma pessoa na rua. A transmissão ocorre por contato direto com fluidos corporais de uma pessoa infectada e sintomática, ou com materiais contaminados por esses fluidos”, explica.

A especialista também destaca a importância da vigilância epidemiológica e da confirmação laboratorial durante surtos da doença.

“Em eventos como esse, a confirmação laboratorial é essencial para identificar o agente infeccioso e direcionar as medidas de controle. Para quem não esteve em áreas afetadas, a principal recomendação é evitar conteúdos alarmistas e buscar informações em fontes oficiais”, complementa.

Variante Bundibugyo preocupa especialistas

De acordo com a OMS, o atual episódio envolve o vírus Bundibugyo, uma variante menos conhecida pela comunidade científica e que ainda não possui vacina ou tratamento específico aprovado. As informações sobre o avanço do surto seguem sendo atualizadas pelas autoridades internacionais de saúde.

O farmacêutico e doutor em Ciências da Saúde Bruno Araujo, professor da Estácio, alerta que o Ebola continua entre as doenças virais mais letais já registradas.

“O Ebola é uma febre hemorrágica viral conhecida pela alta letalidade. Identificado pela primeira vez em 1976, próximo ao rio Ebola, na atual República Democrática do Congo, o vírus ganhou notoriedade pelos surtos devastadores registrados no continente africano”, afirma.

Os sintomas iniciais incluem febre alta, dores musculares intensas, fraqueza e problemas gastrointestinais. Em casos graves, a doença pode evoluir rapidamente para hemorragias severas e falência múltipla de órgãos.

Segundo o especialista, a principal preocupação atual está relacionada justamente à variante Bundibugyo. Enquanto a cepa Zaire, responsável pelas maiores epidemias anteriores, já conta com vacinas e medicamentos utilizados em surtos recentes, a nova variante ainda não dispõe de tratamentos específicos validados.

“O principal fator de preocupação é justamente a ausência de ferramentas específicas contra essa variante. Na prática, os médicos dependem apenas de medidas de suporte clínico, como hidratação intensa, correção de distúrbios metabólicos e estabilização respiratória. Em doenças tão agressivas, isso reduz consideravelmente as chances de sobrevivência”, afirma.

Para Bruno Araujo, o novo surto reforça a importância da cooperação internacional e da vigilância contínua em saúde pública.

“O Ebola nos lembra que epidemias continuam sendo uma ameaça global em um mundo altamente conectado. Em poucas horas, um vírus pode atravessar continentes; em poucos dias, desafiar sistemas inteiros de saúde pública. A velocidade da resposta internacional e a capacidade de vigilância serão decisivas para impedir que essa emergência se torne uma crise ainda maior”, conclui.

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