- 25 de abril de 2026
Enquanto o consumo preocupa, os custos crescem e a indústria lucra com a doença, o Pará se mantém na rota do tabagismo
Após quase duas décadas de queda, o Brasil voltou a registrar aumento no número de fumantes. Dados do Ministério da Saúde mostram que a proporção de adultos fumantes passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024. A reversão também chega ao Pará, onde os efeitos desse movimento começam a aparecer com mais nitidez.
O principal motor dessa mudança é o avanço dos cigarros eletrônicos, os vapes. Com aparência moderna, sabores variados e discurso de menor risco, eles ganharam espaço entre jovens e adolescentes, inclusive na Região Norte, onde o acesso à prevenção e à fiscalização é mais desigual.
O impacto, no entanto, não se limita ao hábito individual. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que o Brasil gaste cerca de R$ 153 bilhões por ano com doenças relacionadas ao tabagismo. São internações, tratamentos de câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias, além da perda de produtividade. No Pará, isso se traduz em pressão direta sobre um sistema de saúde já sobrecarregado.
O novo perfil de consumo antecipa o surgimento de doenças respiratórias agudas e cardiovasculares, sobrecarregando as redes de urgência e emergência locais. Além disso, o estado lida com a persistência do uso de tabaco artesanal em áreas rurais, o que eleva a incidência de cânceres e doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC).
Esse cenário exige maior investimento em tratamentos de alta complexidade, como quimioterapia e leitos de UTI, desviando recursos que seriam aplicados em prevenção. A logística geográfica desafiadora do Pará agrava o problema, pois o tratamento dessas patologias crônicas requer deslocamentos longos para centros de referência.
O aumento da dependência de nicotina também eleva a demanda por programas de cessação no SUS, que já operam com capacidade limitada. Assim, o sistema público precisa gerir simultaneamente o impacto dos novos hábitos urbanos e das tradições de consumo no interior.
Entre 2020 e 2024, apenas em Belém, foram registradas 1.494 internações por DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) e 838 por asma, segundo estudo publicado no Pará Research Medical Journal, um periodico de medicina publicado online pela Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará.
Um dado crítico, colhido na mesma fonte, demonstra o peso dessa situação para o sistema público: o tempo de ocupação de leitos. Pacientes tabagistas ficam internados, em média, 6,5 dias, enquanto não tabagistas ocupam o leito por 4,2 dias. Essa diferença de mais de 50% no tempo de internação reduz a rotatividade de leitos e aumenta os custos hospitalares. Além disso, a taxa de reinternação por DPOC é 30% maior entre aqueles que não conseguem abandonar o hábito após a alta.
Cadeia expansiva
A cadeia do tabaco ajuda a entender por que o problema se mantém vivo. Na base, estão pequenos agricultores que ainda dependem da cultura do fumo como complemento de renda. No Pará, esse cultivo não tem escala industrial como no Sul do país, mas aparece de forma localizada em municípios como Tracuateua, no nordeste paraense, onde comunidades rurais mantêm a atividade como parte importante da economia familiar, segundo pesquisas da UFPA.
Mais acima na cadeia estão as indústrias, que concentram a maior parte dos lucros, seguidas pelo comércio formal e informal, incluindo o mercado ilegal. No topo do ciclo está a expansão dos vapes e da dependência da nicotina, que alimenta um consumo contínuo e gera doenças crônicas e mortes evitáveis.
Nos últimos anos, um novo elemento acelerou essa dinâmica: as redes sociais. Os cigarros eletrônicos ganharam força com marketing indireto, estética atrativa e forte apelo entre jovens. O resultado é uma mudança de percepção perigosa. O vape deixou de ser visto como alternativa para parar de fumar e passou a funcionar, muitas vezes, como porta de entrada para a dependência.
No contexto paraense, estudos indicam aumento da demanda por tratamento de doenças relacionadas ao tabaco, como vimos na publicação da Santa Casa, enquanto a juventude se torna mais exposta ao uso de dispositivos eletrônicos. Soma-se a isso a desigualdade regional, que dificulta o acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento em várias regiões do estado.
Mesmo sem estar entre os maiores produtores de tabaco do país, o Pará está diretamente conectado ao impacto final dessa cadeia: o adoecimento da população. É um problema antigo, que apenas mudou de aparência.
E engana-se quem acredita que o tabagismo perdeu força. Ele não desapareceu, apenas se transformou. Hoje está nos dispositivos eletrônicos, nas estratégias digitais das marcas e em discursos que suavizam seus riscos. Mas o desfecho é sempre o mesmo. Dependência, doença e morte.