• 3 de outubro de 2025

CNH: minuta prevê que candidato poderá fornecer carro para aulas práticas e combiná-las livremente com instrutor

A minuta da resolução que estabelece novas normas para o acesso à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) prevê que o candidato poderá fornecer o veículo utilizado nas aulas e combinar “livremente” com o instrutor a carga horária das atividades práticas. Além disso, independentemente de realizar previamente alguma aula prática, o aluno poderá agendar a realização do exame de direção veicular – a etapa final para obter a permissão para dirigir.

O Ministério dos Transportes recebeu aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para abrir, a partir desta quinta-feira, uma consulta pública sobre o projeto de acabar com a obrigatoriedade de frequentar autoescolas para obter o documento. A ideia é que o texto receba sugestões durante um mês antes da edição, até o fim do ano, de uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).

O projeto destaca que, depois de ser aprovado nos exames teóricos, o candidato a tirar CNH poderá iniciar “a seu critério” as aulas práticas, “ajustadas” com o instrutor, que poderá ser substituído por outro “a qualquer tempo”, conforme “conveniência” do aluno. O veículo a ser utilizado poderá ser disponibilizado pelo instrutor ou pelo próprio candidato, observados os requisitos definidos na resolução.

A proposta prevê que o profissional deverá orientar o candidato “na definição das habilidades a serem exercitadas nas aulas, considerando seu perfil de condução, suas necessidades de aprendizagem e os critérios de avaliação previstos para o exame de direção veicular”.

Conforme a minuta, as aulas práticas só poderão ocorrer após expedição da Licença de Aprendizagem Veicular; nos termos, horários e locais estabelecidos pelo órgão ou entidade de trânsito responsável; e sob supervisão permanente de instrutor devidamente autorizado para realizar esse trabalho.

O projeto também prevê que, a partir da aprovação nos exames teóricos, “independentemente da realização prévia de aulas práticas de direção veicular, o candidato poderá agendar a realização do exame de direção veicular, destinado a avaliar as habilidades do candidato na condução do veículo”.

Novas regras
Segundo o Ministério dos Transportes, o objetivo da medida é “democratizar o acesso da população” à licença, tendo em vista o “alto custo do processo atual”. Ao GLOBO, a Associação Nacional dos Detrans (AND) reconheceu que os preços atuais são um problema, mas frisou ser preciso ter cautela e defendeu o foco na qualidade da formação.

Nas redes sociais, o ministro dos Transportes, Renan Filho, afirmou que a medida é voltada para a promoção da “justiça social”. “O que estamos sugerindo é desburocratizar o processo, e isso não exclui a exigência da prova pelos Detrans, mas permite uma capacitação mais livre e barata”, escreveu.

Qual a justificativa?
Segundo o ministro, a proposta faz parte de um pacote para reduzir os custos e exigências que atualmente são necessários para conquistar a licença. Para o ministério, a CNH está “diretamente ligada ao acesso ao primeiro emprego, à mobilidade e à qualificação para atividades profissionais que vêm crescendo, como entregadores e motoristas de aplicativo”.

A pasta destacou, ainda, que grande parte dos 40 milhões de brasileiros sem carteira aptos a dirigir são impedidos justamente pelos valores das aulas de formação de motoristas. Conforme divulgado, 45% dos proprietários de veículos da Categoria A (motocicletas) pilotam sem ter carteira; na Categoria B (veículos de passeio), o percentual é de 39%.

Quais serão as categorias?
A mudança propõe alterar as atuais normas para obter a CNH nas categorias A e B, conforme afirma o ministério. No entanto, Renan Filho afirmou, em entrevista à Folha de S. Paulo, que o formato em vigência dificulta a formação de profissionais, especialmente caminhoneiros, motoristas de ônibus e operadores de máquinas pesadas, indicando que as mudanças poderiam alcançar as categorias C e D, o que não é citado pela pasta.

Como serão as aulas?
Com uma eventual mudança, as aulas teóricas passariam a ser facultativas, eliminando a exigência de uma carga horária mínima nas autoescolas. Inicialmente, o Ministério dos Transportes também previa que as aulas práticas deixariam de ser obrigatórias, mas essa proposta pode ser revista, com a possibilidade de apenas uma redução da carga horária exigida.

O ministério afirmou que os cidadãos poderão aprender nas autoescolas ou com um instrutor autônomo credenciado nos Detrans e na Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). O ministro Renan Filho, no entanto, chegou a citar exemplos de novos condutores sendo formados por “irmãos mais velhos” e até em campanhas de igrejas locais durante a entrevista à Folha.

Qual seria o custo?
O ministério alega que o valor médio para a obtenção da CNH hoje é de R$ 3.215,64, sendo R$ 2.469,35 (cerca de 77%) apenas referente à autoescola. Essa seria, em média, a economia para os motoristas numa eventual aprovação do projeto.

Procurada pelo GLOBO, a pasta destacou não haver informações sobre a imposição de um valor base para os instrutores profissionais, o que seria capaz de garantir uma maior regulação, custos menores e, consequentemente, a democratização pretendida.

Como serão as provas?
As provas teóricas e práticas continuarão sendo exigidas pelo Detran de cada estado. Uma pessoa pode aprender a dirigir em uma via fechada, chamada de “circuito fechado particular”, como um condomínio. A questão, contudo, também não foi esclarecida pelo ministério.

Em relação à preparação para as provas teóricas, hoje feitas com apostilas disponibilizadas nas autoescolas e com simulados online no site do Detran, a pasta também não soube informar se haverá a disponibilização de materiais gratuitos fora do âmbito digital. Ao GLOBO, o ministério afirmou que “os detalhes do projeto ainda estão em definição pela Casa Civil”.

Como é em outros países?
De acordo com o Ministério dos Transportes, a medida se inspira em práticas adotadas em países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Japão, Paraguai e Uruguai, onde os modelos de formação são mais flexíveis e “centrados na autonomia do cidadão”.

O que falta esclarecer?
Focada na inclusão, a proposta não detalhou como serão os aspectos de segurança, principalmente para as aulas práticas. Para a AND, a formação dos novos condutores deve priorizar essa questão, contribuindo para a redução dos altos índices de acidentes e mortes no trânsito.

Nas autoescolas, os carros utilizados possuem adaptações para o auxílio dos instrutores, capazes de controlar os pedais do veículo mesmo no banco do carona, o que não é possível em veículos de passeio convencionais, como os que poderiam ser utilizados no novo modelo.

Fonte: O Globo

Relacionadas

EMPREGO POR HORA

O varejo alimentar de Belém, com cerca de 139 supermercados e centenas de comércios, entra no centro da controvérsia sobre a…
Primeiros gêmeos nascem após reabertura do Hospital Anita Gerosa em Ananindeua

Primeiros gêmeos nascem após reabertura do Hospital Anita Gerosa…

Os primeiros gêmeos do Hospital Materno-Infantil Anita Gerosa, em Ananindeua, após a reabertura pela rede estadual de saúde, nasceram na última…
Em Belém, até 85% das domésticas seguem sem carteira e expõem distância entre lei e realidade

Em Belém, até 85% das domésticas seguem sem carteira…

Mais de 80% das trabalhadoras domésticas no Pará, percentual que pode chegas a cerca de 85%, atuam sem carteira assinada, segundo…