• 14 de abril de 2026

Ataque de jovem a homem em situação de rua chama atenção para quase 1.500 pessoas vivendo nessa condição em Belém

Reprodução/Redes Sociais

A capital paraense tem ao menos 1.474 pessoas em situação de rua, segundo dados do Cadastro Único analisados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (UFMG). Estimativas do Ministério Público, porém, indicam que esse contingente pode já ter ultrapassado 2 mil e chegar a até 3 mil pessoas.

Na verdade, Belém não possui um censo próprio acessível e a população invisível cresce mais rápido do que a capacidade do poder público de medi-la. E  o que é pior: de atendê-la.

O episódio recente de agressão a um homem em situação de rua por estudantes universitários do Cesupa escancarou essa realidade. É um cenário urbano em deterioração, em que milhares vivem à margem, concentrados principalmente em áreas centrais como o Ver-o-Peso, a praça da República e o entorno da praça Dom Pedro II.

Os dados mais recentes mostram que toda a Região Metropolitana de Belém concentra 2.207 pessoas em situação de rua, o equivalente a quase 70% de todo o estado. A capital lidera com folga, reunindo mais da metade desse total.

Mas o crescimento é o dado mais alarmante. Estudos indicam aumento de até 500% em menos de uma década, impulsionado pela crise econômica, pela pandemia e pela ausência de políticas estruturais.

Historicamente, o problema era menor. Em 2014, um levantamento da UFPA identificou cerca de 478 pessoas nas ruas de Belém. Dois anos depois, a própria rede de assistência municipal já atendia mais de 800 indivíduos, de acordo com a Codem (Companhia de Desenvolvimento e Administração da Área Metropolitana de Belém). Hoje, a realidade é ainda mais numerosa, mais dispersa e mais complexa.

Quem são

O perfil dessa população ajuda a desmontar estereótipos. A maioria é formada por homens adultos, mas há crescimento de mulheres, idosos e até famílias inteiras. No Pará, cerca de 44% têm entre 40 e 59 anos, enquanto mais de 20% já são idosos.

As trajetórias são diversas: desemprego, rompimento de vínculos familiares, dependência química e migração forçada estão entre os principais fatores. Muitos sobrevivem de trabalhos informais, como reciclagem de lixo, pequenos serviços, venda ambulante, ou da ajuda eventual de terceiros.

A rua, no entanto, impõe um cotidiano de extrema vulnerabilidade, incluindo  insegurança, fome, falta de higiene e exposição constante à violência. Grande parte relata uso de álcool ou outras drogas, frequentemente associado à própria condição de exclusão social.

Embora presentes em toda a cidade, há uma geografia clara da exclusão. As maiores concentrações estão em áreas de grande circulação econômica e turística, onde há mais chance de obter renda informal ou doações. Regiões como o centro histórico, mercados, praças e avenidas movimentadas concentram a maior parte dessa população. Ao mesmo tempo, cresce a presença em bairros periféricos, o que indica interiorização do problema e maior dificuldade de alcance por políticas públicas.

O que falta

A rede de atendimento ainda é insuficiente. Em 2025, os serviços municipais registraram milhares de atendimentos, mas pouco mais de 90 acolhimentos efetivos em abrigos, número irrisório diante da demanda. O próprio Ministério Público aponta um descompasso estrutural: há mais pessoas nas ruas do que vagas disponíveis em políticas de acolhimento. Especialistas defendem que o enfrentamento exige integração entre assistência social, saúde mental, habitação e geração de renda, algo ainda fragmentado em Belém.

Enquanto o poder público não responde à altura, a sociedade civil tenta preencher lacunas. Organizações, coletivos e grupos religiosos distribuem alimentos, roupas e oferecem escuta e encaminhamento. Para além da ajuda imediata, seria preciso apoiar iniciativas sérias e contínuas, evitar abordagens violentas ou higienistas e cobrar políticas públicas estruturais.

A omissão custa caro. Sem diagnóstico preciso, sem metas claras e sem expansão real da rede de atendimento, a cidade normaliza o inaceitável: milhares vivendo sem o mínimo. A agressão que chocou Belém não começa com um ato insano de violência, ela é precedida por anos de negligência. E enquanto a prefeitura não tratar a questão como prioridade, o número de pessoas vulneráveis tende a crescer.

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