• 23 de abril de 2026

Como São Jorge e Ogum unem igrejas e terreiros em uma mesma rede de devoção para vencer os dragões do cotidiano

Fernando Frazão / Ag. Pará

Hoje é dia de São Jorge. Esta data conecta igrejas, terreiros e famílias inteiras, no Brasil, por um fio comum de devoção. Pelo sincretismo religioso, o santo católico é associado, na umbanda e religiões de matriz africana, ao orixá ligado ao ferro, à tecnologia e à abertura de caminhos, unindo força, coragem e proteção. 

Assim como em Belém, o sincretismo entre São Jorge e Ogum é predominante no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Na Bahia, em algumas vertentes do candomblé e da umbanda, São Jorge é também associado a Oxóssi, pelo aspecto de caçador e guerreiro.

No Brasil, esse encontro não é conflito, funciona mais como uma ponte. Terreiros em Belém e Ananindeua, como a Tenda de Umbanda Pena Verde e Tenda de Umbanda Ogum São Jorge, realizam festejos hoje, unindo a figura do Santo católico à energia do orixá guerreiro. 

Na comunidade católica, a principal referência para a devoção e festejos do santo em Belém está localizada no bairro da Marambaia. A Paróquia de São Jorge, na avenida Dalva, é a matriz dedicada ao santo na capital paraense, com festividade anual que inclui missas, novenas e uma pequena procissão que percorre as ruas do bairro. A devoção ao santo é muito forte entre militares e pessoas que buscam proteção e força para encarar as batalhas do dia a dia.

Devoção

A sobreposição de imagens entre o cavaleiro medieval e o orixá africano ajuda a explicar a amplitude da celebração no Brasil. Em cidades como Rio de Janeiro, onde o 23 de abril é feriado, multidões participam de missas, procissões e rituais de matriz africana. Em Belém, a data se manifesta de forma mais difusa, com altares domésticos, rezas, pontos cantados em terreiros e homenagens que mesclam elementos católicos e afro-brasileiros.

O sincretismo foi costurado nos tempos difíceis da escravização e permitiu que duas vertentes da fé conversassem uma com a outra sem pedir licença. Ogum vestiu armadura de São Jorge e seguiu sendo celebrado, respeitado, reinventado. 

A força simbólica é simples e poderosa. São Jorge/Ogum é aquele que abre caminhos quando tudo parece fechado. É o protetor do trabalhador que pega cedo o ônibus lotado, da mãe que enfrenta fila de hospital, do pescador que olha para o céu e pede fartura. O dragão muda de nome conforme a aflição. Pode ser uma dívida, uma doença, um medo. Mas a lança continua firme, qualquer que seja o inimigo.

A presença de São Jorge (e Ogum) na cultura brasileira é extensa. Na música popular, Jorge Ben Jor transformou devoção em suingue com “Jorge da Capadócia”, cantada em coro até por quem não tem a menor ideia de onde fica a Capadócia.  “Jorge sentou praça na cavalaria / Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia… / Jorge é da Capadócia / Salve Jorge!”. 

A canção se tornou uma espécie de hino informal, reinterpretada por diferentes artistas ao longo das décadas. De Fernanda Abreu a Racionais. Caetano Veloso já associou a figura do santo à ideia de resistência cultural brasileira. Zeca Pagodinho frequentemente evoca o santo como protetor cotidiano, refletindo uma religiosidade prática, ligada à vida urbana. A figura do guerreiro aparece menos como mito distante e mais como presença acessível, quase doméstica. A bem dizer, é praticamente um amigo.

Na literatura, Jorge Amado explorou em sua obra o sincretismo religioso baiano, onde orixás e santos católicos coexistem como parte da experiência cultural. Em “O compadre de Ogum”, a referência é explícita e muito bem humorada. Já Luiz Antonio Simas, estudioso das culturas populares, observa que “os santos e orixás no Brasil são menos entidades distantes e mais parceiros de jornada”, sintetizando a proximidade entre devoção e cotidiano.

Segundo o antropólogo Roberto DaMatta, o Brasil construiu uma cultura “capaz de combinar códigos distintos sem anulá-los”, o que ajuda a explicar a popularidade de figuras híbridas como São Jorge e Ogum.

Convivência

Essa lógica se expressa, em Belém, em práticas que atravessam diferentes camadas sociais. Em bairros periféricos e centrais, imagens do santo aparecem em casas, comércios e penduradas no retrovisor dos carros. Pequenos altares dividem espaço com ventiladores barulhentos e calendários antigos com a imagem do santo guerreiro. Há quem acenda vela, há quem bata tambor, há quem faça os dois, garantindo cobertura espiritual completa, como bom brasileiro, chegado a uma mistura.

Terreiros dedicados a Ogum realizam rituais com cantos e oferendas, enquanto igrejas católicas celebram missas específicas para o santo. A coexistência desses espaços revela uma religiosidade que não se organiza por exclusão, mas por sobreposição.

A persistência da devoção também se relaciona ao simbolismo do guerreiro. Em um contexto marcado por desigualdades e desafios cotidianos, e Belém é um belo exemplo dessa condição, a figura de alguém que enfrenta e vence o mal (representado pelo mítico dragão) mantém forte apelo e provoca grande adesão. 

É por isso que, neste 23 de abril, o que se observa é a reafirmação de um dos traços mais característicos da cultura brasileira: a capacidade de integrar referências diversas em um mesmo sistema de significados, mantendo viva uma devoção que é, ao mesmo tempo, histórica e contemporânea.

A popularidade de São Jorge/Ogum não exige pureza, apenas coragem e propósito. Não cobra explicação teológica, basta a boa intenção. O santo compreende o atraso, orixá reconhece o cansaço. Num país onde a vida nem sempre é fácil, ter um guerreiro por perto faz toda diferença. É o pacto silencioso entre espada e esperança.

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