• 18 de abril de 2026

Saberes tradicionais e produtos da floresta são aliados da ciência no Pará

Alex Ribeiro/Agência Pará

A floresta dita ritmos e saberes no Pará. A cura raramente começa em um laboratório. Ela nasce nas margens dos rios. Nos quintais da periferia de Belém. Nos terreiros de umbanda. Nos ilês do candomblé. E nas mãos de curandeiros que conhecem as plantas pelo nome, pelo cheiro e pela história. É desse território vivo que emergem práticas que, cada vez mais, chamam a atenção da ciência. Não como folclore, mas como fonte legítima de conhecimento.

O uso da andiroba (Carapa guianensis), por exemplo, é amplamente difundido entre comunidades ribeirinhas para tratar inflamações, dores musculares e picadas de inseto. Estudos conduzidos por instituições como a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Embrapa Amazônia Oriental comprovam que o óleo da semente possui propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes, corroborando o uso tradicional. O mesmo acontece com a copaíba (Copaifera spp.), cujo óleo é aplicado tanto em rituais espirituais quanto no tratamento de infecções e já foi alvo de pesquisas que identificaram ação antimicrobiana e anti-inflamatória.

Nos terreiros de umbanda de Belém, folhas como arruda, manjericão e espada-de-são-jorge são utilizadas e recomendadas em banhos de ervas e defumações. Essas práticas, comuns em religiões de matriz africana, têm significados espirituais profundos, mas também despertam interesse científico. Pesquisas na área de farmacologia vegetal indicam que essas plantas contêm compostos com ação calmante, antioxidante e até antimicrobiana, como já foi demonstrado em estudos importantes publicados em periódicos como o Journal of Ethnopharmacology.

Outro exemplo é o jambu (Acmella oleracea), conhecido por provocar uma leve dormência na boca e ser um ingrediente muito presente na culinária. O jambu também é usado na medicina popular como analgésico natural. Pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pela própria UFPA investigam o espilantol, substância presente na planta, com potencial para aplicações farmacêuticas, inclusive na odontologia.

Diálogo aberto

Esses casos ilustram um movimento mais amplo, em que saberes tradicionais deixam de ser marginalizados e passam a dialogar com a ciência. É nessa direção que atua a biomédica e pesquisadora Lays Souza da Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ao investigar o potencial medicinal do aranto (Kalanchoe daigremontiana), planta também presente em práticas populares e religiosas, ela propõe justamente essa ponte entre conhecimentos ancestrais e métodos científicos.

Segundo especialistas em etnobotânica, área que estuda a relação entre humanos e plantas, como alguns pesquisadores ligados ao Museu Paraense Emílio Goeldi, o Pará é um dos territórios mais ricos do mundo nesse tipo de conhecimento. Levantamentos etnobotânicos realizados na região amazônica mostram que comunidades tradicionais utilizam centenas de espécies vegetais com fins medicinais, muitas ainda pouco estudadas pela ciência.

No entanto, esse diálogo não ocorre sem tensões. Pesquisadores e lideranças comunitárias alertam para o risco de biopirataria e para a necessidade de garantir que o conhecimento tradicional seja reconhecido e protegido. A Convenção sobre Diversidade Biológica e a legislação brasileira sobre acesso ao patrimônio genético são frequentemente citadas como marcos importantes nesse debate.

Ainda assim, iniciativas colaborativas vêm crescendo. Projetos que envolvem universidades, institutos de pesquisa e comunidades locais buscam não apenas validar cientificamente esses saberes, mas também garantir que seus detentores sejam protagonistas no processo.

No Pará, essa integração ganha um significado especial. Aqui, a floresta é objeto de estudo, mas também é sujeito de conhecimento. Ao que tudo indica, o futuro da medicina pode depender menos de descobrir algo novo e mais de aprender a escutar o que já era sabido. O Pará tem muito a ensinar.

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