• 24 de outubro de 2025

Relatório da PF detalha esquema milionário de corrupção na Secretaria de Saneamento da Prefeitura de Belém

Um relatório da Polícia Federal (PF), parte da Operação Óbolo de Caronte, revelou um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que teria desviado mais de R$ 150 milhões de contratos de saneamento e drenagem urbana da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), em Belém, durante o governo do ex-prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL). A investigação aponta superfaturamento, licitações direcionadas e saques em espécie, envolvendo servidores públicos e empresários.

Embora o documento não cite nominalmente o ex-prefeito, ele descreve a existência de um “núcleo político” dentro da administração municipal, responsável por dar sustentação e aparência de legalidade às fraudes. Entre os principais nomes mencionados estão a ex-secretária Ivanise Gasparim, considerada de confiança de Edmilson e supostamente indicada pelo senador Beto Faro (PT), o ex-chefe de Gabinete Aldenor Júnior, e o ex-secretário de Coordenação-Geral, Cláudio Puty, ex-deputado federal e um dos principais conselheiros do então prefeito.

Segundo a PF, o grupo empresarial F.A.S. Serviços Técnicos Ltda., de propriedade do empresário Jorge Quintairos Jacob, firmou três contratos com a Sesan em 2024, totalizando R$ 115 milhões, todos assinados por Ivanise Gasparim. Antes mesmo da licitação, a empresa já havia recebido R$ 400 mil sob justificativas genéricas, o que a PF classificou como “antecipação irregular de recursos” e “simulação de execução de serviço”.

A engrenagem financeira era operada por Jorge Jacob, seu filho Igor e o sócio Nivaldo Barros Filho, que movimentavam grandes quantias em dinheiro vivo. Entre novembro de 2023 e outubro de 2024, a F.A.S. sacou R$ 9,1 milhões em espécie, quase sempre em valores inferiores a R$ 50 mil — estratégia conhecida como smurfing, usada para burlar o controle do Coaf. O dinheiro era distribuído em “pontos de entrega” pela cidade, substituindo transferências bancárias por mochilas cheias de cédulas.

O ponto de virada da investigação ocorreu em 14 de novembro de 2024, quando a PF flagrado Jorge e Igor Jacob sacando R$ 600 mil em uma agência da Caixa Econômica Federal, no bairro de Batista Campos, acompanhados de Nivaldo Barros e Saulo Lacerda. O dinheiro e os veículos usados no transporte — uma Ford Ranger e um Jeep Cherokee — foram apreendidos, consolidando o elo entre os contratos da Sesan e o esquema de repasses clandestinos.

A PF descreve a rede montada pela F.A.S. como uma “organização criminosa estável e hierarquizada”, formada por empresas de fachada registradas no mesmo endereço, sócios com vínculos familiares e notas fiscais espelhadas usadas para lavar recursos públicos.

O relatório conclui que as irregularidades só foram possíveis com anuência de membros do alto escalão da prefeitura, expondo o contraste entre o discurso ético do ex-prefeito e a realidade de contratos sob suspeita de corrupção.

Com o avanço da Operação Óbolo de Caronte, a PF afirma que o saneamento virou um dos principais focos de desvio de verbas públicas em Belém, deixando um rastro de obras inacabadas, ruas alagadas e cofres esvaziados, símbolos de um sistema onde o dinheiro público foi usado como moeda política e pessoal.

*Com informações da Coluna Olavo Dutra.

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