- 10 de maio de 2026
Quem cuida da mãe? Depressão pós-parto atinge 1 em cada 4 mulheres
Todos os dias antes de buscar a filha na creche, Catalina Strada sentia uma estranha dor de barriga. As idas ao banheiro atrasavam sua saída de casa, dando um sinal de que seu corpo rejeitava iniciar aquela parte da rotina. Mas não era só isso: seu humor havia se deteriorado, e a sensação de tristeza só aumentava a cada dia.
Foi nesse momento, em dezembro de 2021, que ela percebeu que algo estava errado. Catalina, agora com 41 anos, viu o sinal vermelho acender como um clarão.
— Até aquele momento não me veio à cabeça a questão da depressão pós-parto como uma possibilidade, porque eu pensava que era algo muito associado aos primeiros meses após a gestação e minha filha tinha um ano e meio — relata.
No entanto, sua intuição disse que algo deveria ser feito e passou a ser acompanhada por uma psicóloga especializada em maternidade. Poucas sessões depois, recebeu o diagnóstico: estava convivendo com uma depressão pós-parto (DPP), também chamada de depressão perinatal.
A partir disso, a argentina, que mora em Curitiba, conseguiu compreender a situação que estava vivendo. E, com a ajuda da mãe (que veio da Argentina) e do marido, iniciou o tratamento medicamentoso e o acompanhamento psiquiátrico.
— O que mais funcionou para mim foi aprender a pedir ajuda concreta. Não é só aquela situação de “qualquer coisa te aviso”. É falar mesmo o que você precisa: “Preciso que você venha hoje”, “Preciso que me ajude trazendo comida”, por exemplo — enumera.
Para Christiane Prosser, 42, descobrir a depressão pós-parto fez sentido após o seu mundo ter sido virado de cabeça para baixo. O descolamento da placenta, considerada uma emergência médica grave, seguido do nascimento prematuro da filha, fizeram com que sua vida fosse inundada por uma tristeza profunda.
— Recebi o diagnóstico dois meses depois do nascimento. Minha filha nasceu de 28 semanas em uma cesárea de emergência. Eu estava nos Estados Unidos viajando com meu marido e as coisas aconteceram totalmente fora dos planos. Ela passou 63 dias na UTI — conta.
Durante aquele período, Prosser chorava todos os dias, preocupando a família.
— Me sentia culpada por tudo aquilo, queria entender por que meu corpo tinha falhado com ela. Você se sente muito vulnerável e não tem o que fazer — relembra a mãe, que iniciou o tratamento logo após voltar ao Brasil.
Doença frequente
O adoecimento psíquico associado à gravidez não é algo raro. É a realidade de uma em cada quatro mulheres, como indica a psiquiatra Patrícia Piper, uma das fundadoras do Movimento Maio Furta-Cor, que traz conscientização sobre a saúde mental das mães.
A especialista salienta que depressão pós-parto é um quadro clínico. Além de fatores relacionadas à gestação e parto, como luto neonatal, violência obstétrica, internação da mulher ou do bebê na unidade de terapia intensiva (UTI), questões como violência doméstica, estresse financeiro, transtorno bipolar, quadro de depressão anterior, histórico familiar e outros transtornos também podem influenciar no surgimento da doença.
— Tudo isso é muito pouco falado. Para se ter uma ideia, dessas mulheres com depressão, 82% não recebem diagnóstico ou tratamento, porque sinais da doença como privação de sono e mudança de apetite, por exemplo, passam despercebidos durante todo o processo de cuidar do recém-nascido — diz a psiquiatra.
Os principais sinais de alerta para a depressão pós-parto são:
- perda de interesse ou prazer em atividades diárias;
- sentimento de indignação ou culpa;
- dificuldade de concentração e tomada de decisões;
- ansiedade e excesso de preocupação;
- baixa disposição nas tarefas relacionadas ao bebê;
- mudança de comportamento;
- dificuldade para dormir ou sono em excesso; e
- mudança no apetite.
O parceiro (a), em especial, pode notar as mudanças. Mas familiares e amigos também podem dar o primeiro passo.
— Quando a mulher ainda se coloca disponível para conversar, fale sobre o que está acontecendo, ofereça ajuda. Porém, na maioria dos casos, ela não vai conseguir verbalizar. Em qualquer situação, é essencial procurar um profissional da saúde mental especializado em casos perinatais, que terá as ferramentas necessárias para diagnosticar e acompanhar essa mãe — orienta a psiquiatra.
Ao ser diagnosticada, ela passará por um tratamento, que pode envolver medicação (alguns remédios não exigem interrupção da amamentação), acompanhamento terapêutico, exercícios para fortalecer os laços entre mãe e bebê e planejamento de apoio que inclui amigos e familiares. Esse acompanhamento pode ser feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Fase de transformações
A maternidade transforma a mulher. Ela não passa somente a ter um corpo diferente, mas também sofre mudanças neurobiológicas silenciosas no cérebro.
Um estudo publicado na revista científica Nature Neuroscience documentou as mudanças sofridas pelo cérebro durante a gestação. Foi observada uma perda no volume cerebral, que pode significar, segundo os pesquisadores, que as áreas que passaram por encolhimento estão se tornando mais especializadas.
Além disso, os hormônios também representam um importante papel. Eles são essenciais para que o corpo e o cérebro consigam se preparar para carregar o feto e que a mãe esteja pronta para cuidar do bebê ao nascer.
Depois do parto, haverá um novo ser humano que depende dela para sobreviver, o que resulta em noites mal dormidas, dificuldades na amamentação, período de resguardo (que pode envolver dores, no caso do parto cesárea), mudanças na rotina e passará por um afastamento da vida social, incluindo trabalho e amigos.
A mulher vive uma reorganização mental, segundo a psicóloga Júlia Bittencourt, especialista em psicologia perinatal. Para ela, não é exagero chamar a gestação seguida do puerpério de uma montanha russa emocional solitária.
— O baby blues, uma tristeza após o nascimento da criança, é um quadro muito comum. Ele surge de 15 a 20 dias depois do parto e tende a ser passageiro. Não devemos confundir com a depressão, que é um transtorno psiquiátrico grave, com sintomas persistentes — esclarece.
No entanto, avalia que ainda existe resistência na sociedade para compreender que as mães podem passar por momentos de baixa emocional. A maternidade ainda é muito idealizada e há uma cobrança cruel em cima das mulheres.
— Uma marca da maternidade que temos atualmente é a solidão. Em comunidades indígenas, por exemplo, uma aldeia inteira ajuda a cuidar da criança. É preciso uma aldeia, como diz o ditado — aponta Piper.
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a depressão pós-parto causa profundas alterações no cérebro (especialmente disfunções no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal), anormalidades do colesterol e ácidos graxos, redução dos níveis de hormônios reprodutivos, alterações na tireoide e vulnerabilidade genética.
— A sociedade não enxerga que o nascimento do bebê também culmina no nascimento de uma nova mulher, a mãe, que precisa de todo apoio. A depressão pós-parto não foi algo que eu causei, foi uma doença que me afetou. Aprendi que temos que ter amor próprio e buscar ajuda quando precisamos, porque ninguém é máquina — enfatiza Christiane Prosser.
Por isso, Bitencourt e Piper defendem que o pré-natal psicológico deveria ser parte do processo de pré-natal de todas as gestantes.
— O acompanhamento é muito baseado no desenvolvimento saudável do bebê, mas não existe um cuidado com o emocional daquela mãe. Por isso, deveria ser uma política pública a inclusão do pré-natal que leve em consideração o impacto de gerar uma nova vida na mulher — diz a psicóloga.
Outro ponto levantado pelas especialistas é a importância de ter uma rede de apoio ativa.
— Cuidar da saúde materna é cuidar das próximas gerações — conclui Piper.
Onde buscar ajuda?
Se você estiver passando por um momento difícil, confira outros lugares além do CVV para buscar ajuda:
Pode Falar – Unicef
Chat da Unicef oferece atendimento para pessoas entre 13 e 24 anos de segunda a sábado das 8h às 22h. Clique aqui ou acesse podefalar.org.br
Unidades de Atenção Psicossocial
Clique aqui e confira as unidades da Rede de Atenção Psicossocial do Ministério da Saúde que oferecem atendimento.
Mapa da Saúde Mental
Mapa do Instituto Vita Alere reúne informações confiáveis sobre locais disponíveis para atendimento. Clique aqui ou acesse mapasaudemental.com.br
Da Agência O Globo