- 22 de maio de 2026
Preço da comida coloca o Pará no centro da nova geopolítica alimentar, revelam novos estudos
A farinha sobe, o peixe encarece, o açaí vira ativo global. No Pará, a crise mundial dos alimentos deixou de ser uma abstração diplomática para entrar com tudo na feira, no mercado e na mesa das famílias paraenses. O alerta aparece em um novo relatório do IPES-Food, um painel internacional de especialistas em sistemas alimentares sustentáveis, que aponta uma mudança profunda. A comida passou a ser instrumento estratégico de poder entre países, tão sensível quanto petróleo, energia ou minerais críticos.
O documento, liderado pela pesquisadora Jennifer Clapp, sustenta que guerras, disputas comerciais, concentração corporativa e dependência de cadeias globais tornaram os sistemas alimentares mais frágeis. O efeito aparece diretamente nos preços. Fertilizantes importados, combustíveis fósseis, logística internacional e oscilações cambiais passaram a determinar quanto custa produzir arroz, feijão, frutas e proteínas.
No Pará, o tema ganha dimensão estratégica. O estado reúne uma das maiores biodiversidades do planeta, concentra produção pesqueira, extrativista e agrícola relevante para o Brasil e, ao mesmo tempo, convive com insegurança alimentar persistente em áreas urbanas e rurais. A contradição amazônica, que está em produzir riqueza natural enquanto parte da população enfrenta dificuldade para acessar alimentação, ajuda a explicar por que o debate sobre soberania alimentar ganhou força na região Norte.
Segundo o IPES-Food, a excessiva dependência de mercados globais tornou países e regiões vulneráveis a choques externos. O painel defende fortalecimento de mercados locais, estoques públicos, cadeias curtas de abastecimento e incentivo à agroecologia como formas de reduzir a volatilidade dos preços.
A discussão encontra eco direto no Pará. Nos últimos anos, produtores familiares paraenses passaram a enfrentar alta de fertilizantes, combustível fluvial e transporte rodoviário. Em municípios do Baixo Amazonas e do Marajó, o custo logístico se tornou tão relevante quanto a própria produção. Em Belém, feiras e supermercados registram oscilações frequentes em itens básicos, especialmente pescado, hortaliças e farinha.
O relatório também chama atenção para a dependência mundial dos combustíveis fósseis no sistema alimentar. Hoje, segundo o IPES-Food, o setor consome 40% dos petroquímicos e 15% dos combustíveis fósseis usados globalmente.
A consequência é direta: quando petróleo e energia sobem por causa de guerras ou crises internacionais, a comida sobe junto.
Na Amazônia, os impactos climáticos ampliam o problema. Secas severas recentes reduziram a navegabilidade dos rios, afetaram pesca, encareceram o transporte de mercadorias e dificultaram o abastecimento em cidades isoladas. Ao mesmo tempo, eventos extremos ameaçam cadeias produtivas fundamentais para o Pará, como cacau, mandioca, açaí e pesca artesanal.
O estado possui vantagens estratégicas para enfrentar esse cenário. A agricultura familiar responde por grande parte dos alimentos consumidos internamente. Sistemas agroflorestais, produção ribeirinha e práticas tradicionais indígenas oferecem modelos menos dependentes de insumos externos e mais resilientes às mudanças climáticas.
O próprio IPES-Food destaca a agroecologia como alternativa para reduzir vulnerabilidades globais. O painel defende investimentos em bioinsumos, bancos de sementes, compras públicas locais e diversificação produtiva. Para o estado do Pará, isso significa transformar conhecimento tradicional em política econômica. Simples e assim e, mesmo assim, complicado. Afinal, depende de uma coisa chamada “vontade política”, que não está ao alcance de todos.