• 12 de maio de 2026

Pará tem um verdadeiro exército de mães solo do tamanho da população de Ananindeua

Reprodução / Freepik

O avanço das mães solo no Brasil já ultrapassa a população inteira de Portugal. Agora, os números ajudam a desenhar também um retrato silencioso do Pará. Mantida a proporção nacional identificada pelo IBGE e por estudos da Fundação Getúlio Vargas, o estado pode ter hoje cerca de 450 mil mulheres criando filhos sem um companheiro e sem rede de apoio, sozinhas entre a informalidade, a pobreza e a ausência do poder público. É um contingente próximo à população de uma cidade do porte de Ananindeua, com seus 478 mil habitantes, segundo o Censo 2022.

Esse número escancara uma mudança profunda na estrutura familiar brasileira. O último Censo mostrou que as famílias formadas por mulheres sem cônjuge e com filhos chegaram a 7,8 milhões de domicílios no país, uma alta em relação aos 11,6% registrados em 2000, subindo para 13,5% em 2022. Paralelamente, levantamento do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV) aponta que o Brasil já soma 11,3 milhões de mães solo. Um milhão e 700 mil a mais do que há dez anos. 

No Pará, onde a taxa de fecundidade ainda está entre as maiores do país e a idade média da maternidade é uma das menores do Brasil, o impacto social tende a ser ainda mais intenso. O próprio IBGE aponta que mulheres paraenses têm filhos, em média, aos 26,8 anos.

Em Belém, a realidade das mães solo se cruza com outro dado estrutural: a informalidade. Grande parte das mulheres chefes de família atua sem carteira assinada, dependendo de bicos, vendas informais ou trabalho doméstico, na maioriadas vezes sem carteira assinada, para sustentar os filhos. Sem creches suficientes, muitas acabam restringindo jornadas de trabalho ou abandonando empregos formais.

A ausência paterna também pesa diretamente na renda. Estudos nacionais mostram que lares chefiados por mães solo concentram maior vulnerabilidade econômica, insegurança alimentar e dificuldade de acesso à educação infantil. Segundo o levantamento da Fundação Getúlio Vargas, mais de 72% dessas mulheres vivem apenas com os filhos, sem uma rede de apoio familiar dentro de casa, como mostra reportagem da IstoÉ Dinheiro.

Enquanto o Brasil discute queda de natalidade e envelhecimento da população, o cotidiano das mães solo revela outra face da crise social: a sobrecarga invisível. São mulheres que sustentam financeiramente o lar, cuidam dos filhos, administram a casa e enfrentam jornadas múltiplas sem divisão de tarefas.

No Pará, estado de grandes distâncias, baixa cobertura de serviços públicos e forte desigualdade regional, a maternidade solo se transforma também em um marcador de exclusão. E cresce num ritmo que já pode ser comparado às popuações de cidades inteiras. 

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