• 24 de janeiro de 2026

Pará tem extremos no Enade da Medicina; cursos vão da nota máxima à pior do país

Foto: Reprodução/Band

O Pará aparece no mapa nacional de avaliação dos cursos de Medicina revelando contrastes marcantes. No Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), a versão do Enade voltada especificamente para a área médica, há altos e baixos. Dados divulgados esta semana pelo Ministério da Educação (MEC) revelam que, entre os nove cursos avaliados no estado, há centros de excelência e instituições com desempenho alarmante. Um cenário que expõe não apenas falhas acadêmicas, mas um risco concreto à saúde da população paraense que, em poucos anos, estará sob os cuidados desses profissionais.

O melhor desempenho foi registrado pela Universidade do Estado do Pará (Uepa) em Marabá, que recebeu nota 5, a pontuação máxima do exame. O resultado coloca o curso entre os melhores do país, em um sistema no qual o MEC considera satisfatórias as notas 3, 4 e 5. A nota máxima indica que ao menos 90% dos estudantes avaliados demonstraram domínio adequado das competências exigidas para o exercício da Medicina.

Na outra ponta, o campus da Universidade Federal do Pará (UFPA) em Altamira obteve nota 1, a pior classificação possível. O resultado indica um percentual extremamente baixo de concluintes considerados proficientes, evidenciando falhas graves e sistêmicas na formação oferecida. Trata-se de um desempenho que, mais do que preocupante, expõe uma ruptura entre o que se espera de um curso médico e o que efetivamente está sendo entregue à sociedade.

Outras instituições no estado também apresentaram resultados insatisfatórios. A Afya Faculdade de Ciências Médicas de Marabá e o Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (Unifamaz) em Belém, receberam nota 2, abaixo do mínimo considerado adequado. Já a Uepa em Santarém, a Faculdade de Redenção e a UFPA em Belém alcançaram nota 3, patamar considerado apenas básico pelo MEC, distante da excelência exigida em uma área que lida diretamente com a vida humana.

Risco real

As notas baixas no Enamed escancaram um problema que transcende os muros das universidades e assume contornos de ameaça à saúde pública. Formar médicos sem domínio adequado de conhecimentos clínicos, éticos e técnicos significa colocar a população em situação de risco real. Diagnósticos equivocados, condutas inseguras e falhas no atendimento deixam de ser hipóteses abstratas e passam a ser consequências previsíveis quando a formação é deficiente.

No contexto paraense, esse risco é ainda mais grave. Em muitas regiões do interior, médicos recém-formados são a principal, quando não a única, linha de atendimento à população. Quando esses profissionais saem de cursos mal avaliados, a precariedade da formação se soma à já conhecida fragilidade da infraestrutura de saúde, criando um cenário perigoso: comunidades inteiras dependentes de profissionais que não foram adequadamente preparados para lidar com situações complexas e de alto impacto humano.

A avaliação do Enamed/Enade possui efeitos regulatórios diretos. Cursos que obtêm conceitos 1 e 2 passam a ser alvo de fiscalização intensificada e podem sofrer sanções do MEC, como imposição de planos obrigatórios de melhoria, redução ou bloqueio de vagas, suspensão de acesso a programas como ProUni e Fies e, em casos extremos, a interdição do curso. As medidas visam conter danos maiores e impedir que instituições com desempenho crítico continuem formando médicos sem condições mínimas de qualidade.

O impacto dessas avaliações é direto na vida da população. Médicos oriundos de cursos com baixo desempenho tendem a enfrentar dificuldades em processos seletivos de residência e na prática clínica cotidiana. No fim da cadeia, quem paga o preço é o paciente, que recebe um atendimento fragilizado e inseguro.

Consequências

Os resultados reacendem, ainda, o debate sobre a expansão acelerada dos cursos de Medicina no Brasil, especialmente no setor privado. Embora o aumento de vagas tenha ampliado o acesso à graduação, ele também aprofundou desigualdades na qualidade da formação, com instituições públicas mantendo, em geral, desempenho superior nas avaliações nacionais.

Ao todo, 99 cursos em todo o país devem ser penalizados diretamente pelo Ministério da Educação. Aqueles com conceito 2 sofrerão redução de vagas, enquanto cursos com conceito 1 terão a suspensão total de novos ingressos.

Em entrevista coletiva, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que as instituições terão prazo para apresentar defesa, mas foi enfático ao destacar o objetivo central da avaliação: proteger a sociedade. “Estamos falando de profissionais que cuidarão de pessoas. Garantir a qualidade da formação médica é uma obrigação do Estado”, afirmou

Cursos de Medicina no Pará e suas notas (Enamed 2025)

Universidade do Estado do Pará (Uepa) – Marabá: Nota 5

Universidade do Estado do Pará (Uepa) – Belém: Nota 4

Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa): Nota 4

Universidade do Estado do Pará (Uepa) – Santarém: Nota 3

Afya Faculdade de Ciências Médicas – Redenção: Nota 3

Universidade Federal do Pará (UFPA) – Belém: Nota 3

Afya Faculdade de Ciências Médicas – Marabá: Nota 2

Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (Unifamaz) – Belém: Nota 2

Universidade Federal do Pará (UFPA) – Altamira: Nota 1

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