• 7 de fevereiro de 2026

No circuito alternativo de carnaval do Pará, as ruas viram uma festa cheia de identidade e a folia é de quem quiser

Raquel Sanches/Agência Pará

O carnaval do Pará não se resume a trios elétricos, cordas ou camarotes: existe um circuito alternativo, cheio de história, identidade e criatividade, onde a rua é palco, a música é livre e a participação é de todos. De Belém ao interior, passando por praças, ruas estreitas e mangues, esses blocos mostram que a folia acontece porque as pessoas querem, e não porque alguém autorizou. É um carnaval de inventividade, memória e alegria coletiva.

No centro desse circuito está o Afoxé do Guarda-Chuva Achado, que retorna às ruas no próximo domingo, 8, às 15h, na Praça do Carmo. Fundado nos anos 1980, o bloco é memória viva de um carnaval feito de improviso, poesia de rua e resistência cultural. Cada guarda-chuva aberto anuncia música, dança e celebração, lembrando que carnaval é mais do que data: é uma experiência compartilhada.

Em Icoaraci, o Rabo de Peru sai todo ano na Quarta-Feira de Cinzas, reunindo trabalhadores da noite e jovens em uma festa tardia, mas intensa, que mostra como a rua se transforma quando a comunidade decide brincar. O Império Romano, criado nos anos 1970, já desfilou em dezembro, uma tradição de Natal, transformando lençóis, sandálias e coroas improvisadas em patrícios e plebeus, prova de que criatividade e humor fazem parte da tradição.

O Fofó de Belém, conduzido por Elói Iglesias, transforma a Cidade Velha em crônica musical neste fevereiro: marchinhas tortas, tecnobrega e sátira urbana conectam passado e presente, lembrando que o carnaval é também reflexão e ironia. O Chove Chuva, mesmo tendo encerrado suas atividades, continua na memória afetiva do circuito. Abriu nas ruas de Belém um caminho próprio puxado pela juventude dos brincantes, pulando e dançando sem compromisso nem artifício, mas com muita alegria e criatividade. 

A geração anterior, que participou das antigas batalhas de confete na Pedreira e no Jurunas, guarda com carinho os momentos em que papel picado voava sem cerimônia, risadas enchiam as ruas e a improvisação era regra.

No interior

Rios e estradas afora, no interior do estado, a festa se funde com a natureza e os ritmos locais. Em Curuçá, os Sujinhos do Mangue mergulham no tijuco dos manguezais, transformando lama em brincadeira ritualizada, com recado claro em defesa da natureza. Em Marapanim, o Carnarimbó une carimbó e carnaval, reafirmando que a música regional não tira férias em fevereiro. Em Vigia de Nazaré, As Virgienses e os Cabeçudos celebram a inversão de papéis, subvertendo normas sociais com humor e irreverência. Já em Cametá, o Cordão da Bicharada transforma a fauna amazônica em fantasia, alegria e consciência ambiental, provando que o carnaval também pode ensinar enquanto diverte.

O que une todos esses blocos, da Praça do Carmo aos manguezais, do Fofó às saudosas batalhas de confete e ao adormecido Chove Chuva, é a criatividade popular, a ocupação das ruas e a sensação de pertencimento. Cada desfile mostra que o carnaval no Pará não precisa de arquibancada nem transmissão ao vivo. Ele vive da presença, da improvisação e do riso compartilhado.

Esses eventos formam um circuito que não depende de licença para existir. Guarda afinidade direta com aquelas antigas batalhas de confetes da Pedreira e do Jurunas, em que o essencial era estar presente, jogar papel colorido, cantar errado e rir junto. É um carnaval que não pede permissão. Apenas acontece.

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