• 5 de maio de 2026

Mapa da fé no Pará mostra avanço dos evangélicos e da diversidade, mas ainda é marcado pela intolerância religiosa

Rovena Rosa/Agência Brasil

O mapa religioso do Pará passa por uma transformação acelerada. Junto com ela, cresce também um problema grave: a intolerância religiosa. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que o estado ainda é majoritariamente católico, com cerca de 54,3% da população (aproximadamente 3,7 milhões de pessoas). No entanto, esse percentual vem caindo de forma consistente. Em 2010, eram mais de 61%.

Ao mesmo tempo, os evangélicos avançam de forma expressiva, seguindo uma tendência nacional, mas com impacto ainda mais forte na região Norte, onde já representam cerca de 36,8% da população. Em cidades como Belém, essa expansão é visível na multiplicação de templos, especialmente em bairros periféricos e áreas urbanas em crescimento.

O cenário religioso também se diversifica. Pessoas sem religião já somam cerca de 9,3% no Brasil, enquanto religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, mais que triplicaram sua presença declarada no país nas últimas décadas. Em Belém, especialistas apontam que esses números podem ser ainda maiores na prática, devido à subnotificação motivada pelo medo de preconceito, um reflexo direto da intolerância.

Histórico alarmante

Esse avanço da diversidade, porém, não tem sido acompanhado pelo mesmo nível de aceitação social. No Pará, os casos de intolerância religiosa vêm crescendo. Dados da Secretaria de Segurança Pública indicam aumento de 10,9% nas ocorrências entre 2024 e 2025, passando de 64 para 71 registros. Em 2026, apenas no primeiro trimestre, já foram contabilizados 22 casos. Em Belém, o histórico é ainda mais alarmante: entre 2015 e 2018, houve um aumento de 900% nos inquéritos relacionados ao tema, com a maioria das ocorrências envolvendo injúrias e ataques contra praticantes de religiões de matriz africana.

Esse tipo de violência não é apenas social. Com todas as letras: é um crime. A Constituição Federal garante a liberdade de crença, e a Lei nº 7.716/1989 prevê punições para discriminação religiosa. Em muitos casos, ataques contra religiões afro-brasileiras são enquadrados como racismo, o que os torna inafiançáveis e imprescritíveis.

Apesar disso, o preconceito persiste. Terreiros seguem sendo alvos frequentes de ataques, e praticantes ainda enfrentam constrangimentos públicos e privados. O aumento das denúncias, inclusive via Disque 100, revela não apenas o crescimento da violência, mas também uma maior disposição das vítimas em buscar justiça , assim como a urgência de respostas mais efetivas do poder público.

Enquanto isso, o Pará continua sendo um território de fé vibrante e plural. Em Belém, convivem procissões católicas tradicionais, cultos evangélicos em expansão e terreiros que resistem e reafirmam sua identidade cultural e religiosa. Essa diversidade, que poderia ser um patrimônio social, ainda esbarra na intolerância de grupos que insistem em negar o direito à diferença.

O retrato atual é claro: a fé no Pará se reinventa e se multiplica, mas o respeito não cresce no mesmo ritmo. Combater a intolerância religiosa deixou de ser apenas uma questão de convivência e hoje se tornou uma necessidade urgente para garantir direitos fundamentais e preservar a própria diversidade que marca a identidade do estado.

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