• 26 de março de 2026

Enquanto o abuso invisível cresce em Belém, meninas, jovens e adolescentes serão ensinadas a se prevenir nas escolas

Reprodução/Agência Brasil

A decisão do Ministério da Educação e do Ministério das Mulheres de levar a prevenção à violência para dentro das salas de aula pode soar como um gesto tardio num país onde a agressão já virou rotina, inclusive entre crianças. Mas em cidades como Belém a medida chega com a urgência de quem tenta interromper um ciclo que começa cedo, se esconde em casa e agora também se espalha pelas telas.

Dados da IBGE mostram que um quarto das adolescentes brasileiras já sofreu algum tipo de violência sexual. Não se trata apenas de estatística: são mais de 2 milhões de jovens expostas a situações que vão de assédio a relações forçadas, muitas vezes dentro do próprio círculo familiar. No Pará, o cenário se agrava em outro indicador sensível: a gravidez precoce ultrapassa 10% das estudantes, colocando o estado entre os piores do país nesse quesito.

Na prática, isso significa que parte significativa das meninas paraenses enfrenta, ainda na adolescência, uma combinação de vulnerabilidades. Da violência à desinformação, passando pela falta de proteção institucional. E, como mostram os dados, a escola pública concentra os maiores índices de vítimas.

Portas de entrada

A violência, porém, não se limita ao espaço físico. Relatório do UNICEF indica que um em cada cinco adolescentes brasileiros já sofreu abuso sexual mediado por tecnologia. São cerca de 3 milhões de vítimas em um país onde o acesso à internet é quase universal entre jovens. Plataformas como Instagram e WhatsApp aparecem como portas de entrada para abordagens que começam com conversa e terminam em extorsão, exposição ou chantagem.

Em quase metade dos casos, o agressor é alguém conhecido. Em mais de um quarto das ocorrências, o primeiro contato ocorre na escola. O dado ajuda a desmontar a ideia de que o ambiente escolar é apenas espaço de risco. É também um ponto estratégico de intervenção.

Nesse cruzamento entre violência doméstica, sexual e digital, a nova política educacional chamada “Lei Maria da Penha Vai à Escola” propõe que crianças e adolescentes aprendam, desde cedo, a identificar abusos, reconhecer limites e buscar ajuda. A aposta é que a informação funcione como vacina social.

O desafio, no entanto, é transformar uma diretriz em prática. Em Belém, onde redes de proteção ainda operam com limitações estruturais e culturais, falar sobre violência de gênero em sala pode significar romper silêncios históricos. Segundo especialistas, o maior obstáculo não é apenas a falta de conteúdo, mas a naturalização da violência. Muitas vítimas sequer reconhecem o que sofreram como crime.

O  peso do silêncio

Um terço das adolescentes que sofreram abuso não contou a ninguém, segundo o UNICEF. Vergonha, medo e descrença na resposta institucional ajudam a manter o ciclo invisível.

Ao defender a medida, o ministro da Educação Camilo Santana afirmou que a escola deve formar uma geração baseada em respeito e equidade. A frase soa como projeto de futuro, mas, em cidades como Belém, também revela um diagnóstico do presente.

Ensinar matemática e português já não basta. Diante de uma realidade em que a violência atravessa casa, rua e celular, a educação passa a disputar outro território: o da proteção. Se funcionar, a sala de aula pode deixar de ser apenas lugar de aprendizado e se tornar linha de defesa. Se falhar, continuará sendo apenas mais um espaço onde o problema é conhecido. E, infelizmente, ignorado.

Relacionadas

Morre Gerardo Renault, pai de Ana Paula do BBB 26; sister não será informada sobre o falecimento

Morre Gerardo Renault, pai de Ana Paula do BBB…

LUTO Gerardo Henrique Machado Renault, pai de Ana Paula Renault, morreu aos 96 anos, dois dias antes da grande final do…
Prefeitura de Belém decreta emergência após temporal superar 150 mm em menos de 24 horas

Prefeitura de Belém decreta emergência após temporal superar 150…

A capital paraense entrou em estado de emergência neste domingo após registrar um volume severo de precipitações em curto período. A…
Delegação do Remo sofre ataques xenofóbicos em jogo contra o Bragantino

Delegação do Remo sofre ataques xenofóbicos em jogo contra…

A delegação do Clube do Remo foi alvo de ataques xenofóbicos proferidos por torcedores do Red Bull Bragantino durante o confronto…