• 15 de março de 2026

Cresce no Pará a prática espiritual de imposição de mãos; terapias como o Reiki ganham espaço no SUS

Reprodução/Mejorconsalud

Pouca gente sabe, mas uma terapia baseada na imposição de mãos já integra oficialmente o sistema público de saúde brasileiro. O Reiki, técnica de origem japonesa voltada ao equilíbrio energético, está entre as práticas reconhecidas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC).

No Pará, onde tradições espirituais ligadas à cura e ao cuidado fazem parte da cultura cotidiana, a prática começa a ganhar visibilidade também na rede pública de saúde, aproximando-se de rituais e terapias já familiares para muitos moradores de Belém.

Criada em 2006, a política nacional foi pensada para ampliar as formas de cuidado oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). E os números mostram que a procura não é pequena. Em 2024, mais de 9 milhões de brasileiros participaram de práticas integrativas no SUS, com cerca de 7,15 milhões de atendimentos registrados, um crescimento de aproximadamente 70% em relação a 2022, de acordo com a Agência Brasil.

Esse conjunto inclui atividades como acupuntura, fitoterapia, meditação e Reiki. Hoje, o país reconhece oficialmente 29 práticas integrativas dentro da política nacional. No caso do Reiki, o procedimento é registrado no sistema de saúde como terapia de imposição de mãos, uma abordagem que busca estimular o relaxamento e o equilíbrio emocional dos pacientes.

Mesmo sendo relativamente recente na rede pública, a técnica já acumula números expressivos. Entre 2017 e 2023, o SUS registrou mais de 255 mil atendimentos relacionados à imposição de mãos, sendo mais de 93 mil sessões apenas em 2023.

Crescimento real

A expansão dessas terapias também se reflete no território nacinal: as práticas integrativas já estão presentes em mais de 4.800 municípios brasileiros, alcançando desde grandes capitais até cidades de pequeno porte.

No Pará, profissionais da rede pública e terapeutas ligados a unidades de saúde vêm incorporando gradualmente essas práticas em atividades de cuidado coletivo, especialmente em ações voltadas à saúde mental, ao manejo do estresse e ao apoio a pacientes com doenças crônicas.

Em muitos casos, o Reiki aparece como complemento a tratamentos convencionais, dentro de uma abordagem que prioriza o bem-estar integral.

Embora o Reiki tenha origem no Japão e tenha se difundido no Brasil principalmente a partir das terapias integrativas, a ideia de transmitir energia ou auxílio espiritual por meio das mãos não é exclusiva dessa técnica. Diversas tradições religiosas presentes no Brasil utilizam práticas semelhantes há décadas.

Espiritismo, umbanda e Johrei

No Espiritismo, por exemplo, é comum a aplicação do chamado passe, momento em que médiuns realizam movimentos com as mãos próximos ao corpo do paciente com a intenção de equilibrar energias e promover bem-estar espiritual.

Já na Umbanda, religião de matriz afro-brasileira bastante presente na Amazônia, práticas de cura espiritual podem ocorrer durante as chamadas giras, encontros religiosos nos quais entidades espirituais incorporadas por médiuns realizam aconselhamentos e atendimentos energéticos, tambem utilizando as mãos.

Outro exemplo é o Johrei, técnica espiritual difundida pela Igreja Messiânica Mundial. Nessa prática, os ministros ou membros da igreja posicionam as mãos em direção à pessoa atendida, com a proposta de transmitir uma energia espiritual considerada purificadora.

Embora tenham origens culturais e religiosas diferentes, essas práticas compartilham um elemento comum: a crença de que a energia espiritual ou vital pode contribuir para o equilíbrio emocional e físico das pessoas.

Presença no Pará

No estado do Pará, onde a religiosidade popular reúne influências indígenas, africanas e europeias, práticas espirituais de cuidado são especialmente difundidas. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, cerca de 1,8% dos brasileiros se declaram espíritas, enquanto aproximadamente 1% se identifica com religiões afro-brasileiras como umbanda e candomblé, proporção que triplicou em relação ao censo anterior.

Os dados estaduais detalhados variam por município, mas sabe-se que os centros espíritas, terreiros de umbanda e templos da Igreja Messiânica estão presentes em diversas cidades paraenses, com destaque para Belém. Esses locais frequentemente realizam atendimentos gratuitos, o que contribui para ampliar o acesso da população a experiências de cuidado espiritual e comunitário.

A crescente busca por terapias integrativas também reflete mudanças culturais na relação das pessoas com a saúde. O aumento da ansiedade, do estresse e de doenças relacionadas ao estilo de vida tem levado parte da população a procurar abordagens que considerem aspectos físicos, emocionais e sociais do paciente.

No Pará, estado marcado por grande diversidade cultural e por tradições de cuidado ligadas à natureza e à espiritualidade, o interesse por terapias integrativas encontra terreno fértil. Em comunidades urbanas e ribeirinhas, práticas de cuidado espiritual, benzimentos e tratamentos energéticos sempre fizeram parte do cotidiano, o que ajuda a explicar a receptividade a iniciativas desse tipo dentro da rede pública de saúde.

Nesse contexto, terapias como o Reiki acabam dialogando com práticas que muitos paraenses já conhecem, mesmo quando vindas de tradições religiosas distintas.

Controvérsia

Ainda assim, a presença dessas terapias no SUS também desperta debates. Parte da comunidade científica questiona a eficácia de algumas práticas sob critérios estritamente biomédicos. Já defensores da política argumentam que o objetivo não é substituir tratamentos médicos, mas ampliar o acesso a formas de cuidado que promovam bem-estar e acolhimento.

Enquanto a discussão continua, os números indicam uma tendência clara: as práticas integrativas estão crescendo dentro do sistema público brasileiro.

E, aos poucos, técnicas antes vistas como alternativas passam a ocupar um espaço cada vez mais institucional no cuidado à saúde. Inclusive no Pará, onde a busca por novas formas de equilíbrio e qualidade de vida dialoga com uma longa tradição espiritual presente na vida de muitos paraenses.

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