• 21 de abril de 2026

Chuva bate recorde, tira moradores de casa, escancara despreparo de Belém e pode voltar hoje

Reprodução

As chuvas que atingiram Belém no domingo, consideradas as mais intensas dos últimos dez anos, produziram alagamentos generalizados na cidade, mas infelizmente foi pior do que isso. Produziram também evidências lamentáveis. Das águas que invadiram casas, comércios e avenidas, emergiu um retrato já conhecido, mas raramente tão visível: o de uma capital onde a sobrevivência cotidiana é, para uma parcela expressiva da população, um exercício constante de adaptação à escassez.

Belém segue em alerta nesta terça-feira (21), com a possibilidade de novos temporais. A  previsão é de até 100 mm de chuva e ventos de até 100 km/h. Isso enquanto a cidade ainda se recupera do toró de domingo.

Nos bairros periféricos, a rotina ainda não se normalizou. Famílias perderam móveis, alimentos e, em muitos casos, a possibilidade de voltar ao trabalho normalmente. Em uma cidade onde entre 30% a 40% da população vivem em situação de pobreza, algo entre 400 mil e 600 mil pessoas, episódios como os de domingo e o risco de se repetir hoje passam a ter efeito direto sobre a renda e a segurança alimentar.

A situação é ainda mais crítica para os que vivem na extrema pobreza. Estima-se que entre 120 mil e 200 mil moradores sobrevivem com renda mensal per capita inferior a R$ 109, patamar que define a linha de miséria. Para esse grupo, um dia sem trabalho, provocado por alagamentos ou pela paralisação do transporte, pode significar simplesmente que não vai ter comida na mesa. Parece cruel. E é isso mesmo, porque toda essa situação é previsível.

Disparidades

Os indicadores ajudam a dimensionar a vulnerabilidade. Apesar de apresentar um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) considerado alto, de 0,75, Belém convive com um nível de desigualdade elevado, medido por um coeficiente de Gini de 0,61, um dos mais altos entre as capitais brasileiras.

Esse indicador foi criado pelo estatístico italiano Corrado Gini em 1912 para medir o grau de concentração de renda e a desigualdade social em um determinado grupo, como países, estados e municípios. Ele compara a distribuição de rendimentos entre a população, indicando disparidades entre os mais ricos e os mais pobres.

Na prática, isso significa que a renda está concentrada e que uma parcela significativa da população vive com muito pouco, em condições precárias de moradia e acesso a serviços.

A infraestrutura urbana danificada amplia o impacto das chuvas. Em diversas áreas, a ausência ou insuficiência de sistemas de drenagem transforma ruas em canais improvisados. O acesso limitado ao saneamento básico em bairros mais pobres aumenta os riscos sanitários após as enchentes, com potencial de propagação de doenças.

Estamos falando de leptospirose, presente na urina de ratos que se mistura às águas da chuva empoçadas; das doenças diarreicas agudas, como gastroenterites, cólera e amebíase, causadas pela ingestão de água ou alimentos contaminados; e das hepatites tipo A e E, transmitidas via oral e associadas ao saneamento inadequado. Fora o tétano, as micoses, a febre tifoide, dengue, chikungunya e zika. Uma tragédia anunciada.

Fragilidade estrutural

O alcance dos alagamentos, desta vez, ultrapassou as fronteiras habituais. Ruas de bairros de renda mais alta também ficaram submersas, evidenciando que a fragilidade estrutural da cidade não se restringe à periferia. A diferença aparece na recuperação: onde há recursos, os danos são absorvidos com rapidez, como já estamos vendo. Onde não há, os prejuízos se acumulam, como veremos.

Especialistas alertam que eventos climáticos extremos tendem a se intensificar. Em uma cidade marcada por desigualdade persistente, isso significa que os mais vulneráveis enfrentarão não apenas a instabilidade cotidiana, mas também choques cada vez mais frequentes e severos.

A chuva não cria a desigualdade de Belém. Mas, ao cair com força sobre uma cidade já desigual, torna-se impossível ignorá-la.

Relacionadas

Com força máxima, Paysandu encara o Vasco pela ida da 5ª fase da Copa do Brasil

Com força máxima, Paysandu encara o Vasco pela ida…

Os torcedores paraenses acompanham nesta terça-feira (21) o confronto entre Paysandu e Vasco da Gama, pela quinta fase da Copa do…
BBB 26 chega à final com recordes e com Veterana, Camarote e Pipoca na busca por prêmio histórico

BBB 26 chega à final com recordes e com…

Se o Big Brother Brasil 26, que termina hoje após “Três Graças” na TV Globo, fosse uma novela, talvez não tivesse…
‘Piratas’ são presos após suspeita de roubo a três embarcações em Igarapé-Miri

‘Piratas’ são presos após suspeita de roubo a três…

Equipes do Grupamento Fluvial de Segurança (GFlu), que atuam na Base Integrada Fluvial Baixo Tocantins, prenderam nesta terça-feira (21), dois homens…