• 5 de maio de 2026

Belo Monte completa dez anos de geração recorde de energia elétrica e ainda representa um apagão de justiça tarifária

Reprodução: Roney Vieira/ O Globo

Dez anos após entrar em operação, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte se consolidou como a maior totalmente nacional (Itaipu é maior, mas binacional) e uma das maiores do mundo. Erguida sob o discurso de desenvolvimento e segurança energética, ela transformou a paisagem do Xingu e colocou o Pará no centro do mapa elétrico nacional. Mas há um paradoxo difícil de ignorar: o estado que produz energia em escala monumental segue convivendo com uma das contas de luz mais caras do país. Belém, frequentemente, apresenta a tarifa mais alta do Brasil devido a custos tarifários elevados. 

A promessa de que grandes projetos trariam benefícios diretos à população local nunca se concretizou plenamente. Em Altamira, símbolo das tensões desde as primeiras manifestações indígenas contra a obra, os impactos sociais e ambientais ainda reverberam. Comunidades deslocadas, mudanças no curso do rio e denúncias de violações de direitos marcaram a trajetória de Belo Monte. Uma década depois, a conta permanece aberta, literal e simbolicamente.

O argumento técnico para o alto custo da energia no Pará passa por fatores como encargos setoriais, tributos estaduais e a lógica do sistema interligado nacional, que distribui a energia gerada sem necessariamente privilegiar quem está mais próximo da fonte. Em outras palavras, produzir muito não significa pagar menos. Ainda assim, a explicação não satisfaz quem vê torres de transmissão cruzando o território enquanto o orçamento doméstico segue pressionado.

Há também o peso histórico da desigualdade regional. Projetos como Belo Monte foram concebidos com foco em atender a demanda de grandes centros urbanos e polos industriais distantes, reforçando uma dinâmica em que a Amazônia fornece recursos, mas recebe poucos retornos proporcionais. A energia gerada no Xingu ilumina cidades a milhares de quilômetros, enquanto moradores locais, em cidades cujos linhões passam por cima da cabeça dos moradores, as tarifas são elevadas, os serviços por vezes precários e há quem nem receba luz elétrica.

As polêmicas que acompanharam a construção da usina, que vão dos protestos indígenas às ações judiciais, não são apenas capítulos do passado. Elas ajudam a explicar por que a obra ainda desperta desconfiança. Para muitos, Belo Monte simboliza um modelo de desenvolvimento que prioriza números grandiosos e ignora a equidade.

Dez anos depois, ainda há quem se pergunte, aqui no Pará, para que serve Belo Monte. Ou melhor: para quem serve? Enquanto o Pará segue pagando caro pela própria energia, a resposta parece distante de atender às expectativas de justiça social e econômica que um projeto desse porte deveria, no mínimo, considerar.

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