- 26 de maio de 2026
Belém vê disparar população de rua sob omissão municipal e vira alvo de censo do IBGE
Belém convive hoje com um retrato cada vez mais evidente da desigualdade social: o crescimento da população em situação de rua. Em praças, sob marquises, nas calçadas e áreas centrais da cidade, homens, mulheres, idosos e até famílias inteiras transformaram os espaços públicos em moradia improvisada diante da ausência de renda, trabalho e políticas permanentes de habitação, situação agracada pela omissão do poder público municipal.
Dados reunidos pelo Ministério Público Federal (MPF), com base no Cadastro Único, apontam que Belém registrava oficialmente 1.952 pessoas em situação de rua ainda em 2025. Desse total, 1.512 eram homens e 440 mulheres. O número, porém, é considerado subestimado por pelos órgãos de defesa dos direitos humanos, justamente pela dificuldade de registrar toda a população que vive em extrema vulnerabilidade.
A situação levou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a lançar, em Belém, o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, iniciativa considerada histórica para enfrentar a invisibilidade social desse grupo. O levantamento surge após pressão judicial do MPF, da Defensoria Pública da União e de outras instituições, que apontaram a ausência de diagnósticos detalhados sobre a realidade local.
O cenário da capital paraense acompanha uma crise nacional. Segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, vinculado à UFMG, o Brasil ultrapassou 365 mil pessoas vivendo nas ruas entre o final de 2025 e o início de 2026. Apenas em abril de 2025, o país já contabilizava mais de 335 mil pessoas cadastradas nessa condição no
Diagnóstico
Os números revelam um crescimento contínuo. Entre 2018 e 2023, os registros praticamente dobraram no país. Estudos do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) também apontam que, na última década, a população em situação de rua cresceu quase dez vezes no Brasil, impulsionada por fatores como desemprego, insegurança alimentar, déficit habitacional, ruptura de vínculos familiares e problemas relacionados à saúde mental e ao uso abusivo de álcool e drogas.
Em Belém, os efeitos da crise econômica, do aumento do custo de vida e da precarização do trabalho aparecem diretamente nas ruas. Regiões como o Ver-o-Peso, São Brás, Comércio, Entroncamento e bairros periféricos concentram pessoas que vivem sem acesso regular à alimentação, higiene, atendimento de saúde e proteção social.
A rede pública de assistência tenta responder à demanda por meio dos Centros POP, serviços especializados voltados ao atendimento da população em situação de rua, mas a capacidade de atendimento está muito aquém da necessidade e a falta de políticas públicas municipais efetivas se traduz no agravamento do problema. Na capital paraense, as unidades funcionam em São Brás e Icoaraci, oferecendo alimentação, higiene pessoal, encaminhamento para documentação civil, acesso ao Cadastro Único e orientação socioassistencial.
O próprio governo federal reconhece que a população em situação de rua enfrenta dificuldades históricas de acesso à saúde, moradia, trabalho e educação. Relatório do Ministério dos Direitos Humanos destaca que o problema está ligado à desigualdade estrutural e exige políticas públicas integradas e permanentes.
A professora Andrea Braga, da PUC do Paraná, observa que a realidade das ruas não pode ser tratada como consequência de escolhas individuais. Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, ela afirma que viver nas ruas representa uma profunda violação de direitos e critica práticas higienistas e de criminalização da pobreza. Para a pesquisadora, o trabalho do Serviço Social é essencial na construção de vínculos, na garantia de direitos e no reconhecimento da dignidade dessas pessoas.
Em Belém, o desafio cresce na mesma velocidade em que a população vulnerável se expande. Enquanto isso, milhares de pessoas seguem tentando sobreviver entre o abandono e a ausência de políticas estruturantes. O aumento da população em situação de rua expõe não apenas uma crise econômica, mas um retrato profundo das desigualdades brasileiras, uma realidade que Belém conhece cada vez mais de perto