• 28 de abril de 2026

Avanço dos produtos orgânicos coloca o Pará no mapa nacional da alimentação sustentável 

Reprodução/Ag. Pará

O crescimento da produção de alimentos orgânicos no Brasil deixou de ser nicho e ganhou escala nacional, com o Pará emergindo como um dos protagonistas desse movimento. Impulsionado pela agricultura familiar, pelo extrativismo e por políticas públicas de compras institucionais, o estado já figura entre os líderes em número de propriedades com cultivo orgânico, atrás apenas de Paraná e Rio Grande do Sul, segundo dados recentes do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Entre 2013 e 2025, o número de propriedades orgânicas no país saltou 150%, chegando a mais de 25 mil unidades produtivas. Hoje, o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos reúne cerca de 24,6 mil produtores formalizados, distribuídos de forma desigual pelo território brasileiro. A liderança ainda se concentra no Sul, mas o avanço no Norte chama atenção, especialmente no Pará, onde a biodiversidade e os saberes tradicionais funcionam como vantagem competitiva.

Sistema orgânico

No estado, a produção orgânica tem características próprias. Diferentemente de outras regiões, onde predominam hortaliças e grãos, a base paraense está fortemente ligada ao extrativismo sustentável e à agroecologia. Produtos como açaí, cacau, castanha-do-pará e óleos vegetais são cultivados ou coletados com baixo impacto ambiental, alinhando conservação e geração de renda. O próprio Ministério da Agricultura reconhece o extrativismo sustentável como parte integrante do sistema orgânico brasileiro.

Essa vocação se conecta diretamente com o perfil da agricultura familiar amazônica. No Pará, grande parte dos produtores orgânicos está vinculada a organizações de controle social, o que permite a comercialização direta sem certificação formal. Trata-se de um mecanismo previsto na legislação para fortalecer pequenos agricultores, de acordo com o Ministério. Feiras locais, cestas agroecológicas e programas públicos tornaram-se canais fundamentais de distribuição.

É justamente nesse ponto que iniciativas como a descrita pela revista Pesquisa FAPESP ganham relevância. A inserção de alimentos orgânicos em hospitais públicos, já em curso em São Paulo, sinaliza uma tendência de expansão das compras institucionais. Programas semelhantes já existem em outras frentes, como a alimentação escolar. Em estados como o Paraná, por exemplo, 5 mil toneladas de alimentos orgânicos foram destinadas à merenda em 2025, com investimento de R$ 54 milhões. O modelo é visto como replicável para outras regiões, incluindo a Amazônia.

Cenário promissor

No Pará, políticas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) têm ampliado a presença dos orgânicos nas compras públicas, ainda que em escala menor que no Sul. Especialistas apontam gargalos logísticos, especialmente nas regiões ribeirinhas, e a necessidade de ampliar assistência técnica e certificação.

Apesar dos desafios, o cenário é promissor. A demanda por alimentos livres de agrotóxicos cresce entre consumidores urbanos, enquanto a agenda ambiental global pressiona por cadeias produtivas mais sustentáveis. O Pará reúne condições únicas: biodiversidade abundante, tradição extrativista e uma base social capaz de expandir a produção com menor impacto ambiental.

A produção orgânica no estado se consolida, portanto, como estratégia de desenvolvimento regional. Ao conectar floresta, agricultura familiar e políticas públicas de alimentação, o Pará avança para ocupar um espaço estratégico no futuro da comida no Brasil. Um futuro cada vez mais verde e cada vez mais amazônico.

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