- 30 de abril de 2026
Belém expõe desafios do clima urbano em estudos que marcam os 90 anos do IBGE
A edição número 70 da Revista Brasileira de Geografia, lançada em celebração aos 90 anos do IBGE, traz ao centro da discussão um tema cada vez mais presente no cotidiano das cidades brasileiras: o clima urbano. Entre os destaques está o Dossiê Clima Urbano, que reúne pesquisas sobre ilhas de calor, percepção das mudanças climáticas e gestão de riscos de desastres, com efeitos particularmente visíveis em Belém. A capital paraense combina fatores que intensificam fenômenos analisados pela publicação, como altas temperaturas, elevada umidade e expansão urbana desordenada.
As chamadas ilhas de calor, áreas com temperaturas mais elevadas devido à concentração de construções e à redução da vegetação, são um dos focos do dossiê. Pesquisas indicam que a presença de cobertura vegetal pode atenuar esse efeito, especialmente em cidades amazônicas, onde áreas verdes convivem com pressões crescentes por ocupação.
Outro eixo da revista aborda como a população percebe as mudanças climáticas. Em Belém, eventos como alagamentos frequentes e períodos de calor intenso vêm se tornando mais recorrentes, afetando principalmente as periferias da cidade. A literatura reunida pelo IBGE aponta que essa percepção é um elemento-chave para orientar políticas públicas.
A publicação também chama atenção para a capacidade institucional dos municípios brasileiros em lidar com riscos geo-hidrológicos, como enchentes e deslizamentos. Em cidades com forte presença de rios e áreas alagáveis, como Belém, a vulnerabilidade é ampliada por desigualdades socioespaciais e limitações na infraestrutura urbana.
Ao reunir estudos inéditos e revisões internacionais, a revista indica que o enfrentamento desses desafios passa por planejamento urbano, uso de novas ferramentas de mapeamento climático e integração entre ciência e gestão pública. Nisso tudo, parece claro que o poder público de Belém está devendo.
Os diagnósticos apresentados reforçam uma constatação recorrente: a cidade não apenas reflete os impactos das mudanças climáticas, mas também antecipa questões que tendem a se intensificar em outras regiões do país.
A discussão proposta pela revista, ao mesmo tempo técnica e aplicada, sugere um ponto de mudança. Em um cenário de eventos extremos mais frequentes, o modo como as cidades amazônicas lidam com calor, água e ocupação do solo pode se tornar referência (ou alerta) para o restante do Brasil. Mas para isso é preciso que Belém faça o dever de casa.