• 28 de abril de 2026

Mais de 3 mil apreensões e algumas mortes emblemáticas retratam crise silenciosa contra a fauna no Pará

ICMBio

Mais de 3 mil animais silvestres foram apreendidos no Pará nos últimos dois anos, um número que revela a dimensão de uma crise persistente de tráfico, cativeiro ilegal e maus-tratos. Mas, para além das estatísticas, episódios emblemáticos, como a morte de centenas de tartarugas no Museu Paraense Emílio Goeldi há mais de 30 anos, ajudam a dimensionar como o problema atravessa décadas e atinge até espaços dedicados à preservação.

Em um dos casos mais marcantes, ocorrido em julho de 1995, mais de 100 tartarugas de água doce morreram dentro do parque zoobotânico do museu, em Belém. A tragédia foi provocada por intoxicação salina após a adição de cerca de seis toneladas de sal na água de um tanque, numa tentativa de eliminar parasitas. O procedimento, considerado irregular, levou à morte de ao menos 111 animais, alguns com mais de 60 anos, e gerou forte repercussão nacional, além da abertura de sindicância para apurar responsabilidades.

O episódio permanece como uma das referências mais simbólicas de falhas no manejo de fauna na capital paraense. E, ainda hoje, ajuda a contextualizar uma realidade mais ampla: a vulnerabilidade de animais silvestres, seja em ambientes clandestinos, seja, eventualmente, em instituições formais.

Tráfico e consumo

Apreensões recentes escancaram a face mais cotidiana dessa crise. Aves com asas mutiladas para impedir a fuga, primatas mantidos em correntes curtas, répteis confinados em caixas sem ventilação. Em operações realizadas em cidades como Belém, Ananindeua, Marabá e Santarém, agentes encontraram animais desnutridos, doentes e, em alguns casos, já mortos.

Casos recentes demonstram que o problema persiste. Em fiscalizações em feiras clandestinas na região metropolitana de Belém, quelônios e aves são encontrados sendo vendidos sem qualquer controle sanitário. Em rodovias federais que cortam o estado, operações da Polícia Rodoviária Federal já interceptaram carregamentos com dezenas de animais escondidos em caixas e sacolas, muitos sem condições de sobrevivência. Já ações do Ibama identificaram criadouros ilegais onde espécies eram mantidas para reprodução e comércio.

A pressão também recai sobre espécies simbólicas da região. Quelônios amazônicos seguem entre os mais visados pelo tráfico, tanto para consumo quanto para venda como animais de estimação. Em algumas apreensões, filhotes são retirados ainda dos ninhos, o que compromete a reposição natural das populações.

Nem mesmo instituições científicas estão imunes a essas situações. No Museu Goeldi, episódios mais recentes também chamaram atenção. Em outubro de 2023, um temporal provocou o transbordamento de tanques e a fuga de dezenas de filhotes de tartarugas, mobilizando equipes em uma operação emergencial de resgate. Já em 2025, a morte de uma ave de grande porte, sob suspeita de doença infecciosa, levou à suspensão temporária da visitação para investigação sanitária.

Desafio da proteção

A legislação brasileira prevê punições para esse tipo de crime. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) estabelece detenção de três meses a um ano, além de multa, para maus-tratos, com aumento de pena em caso de morte. Também criminaliza a captura, o transporte e o comércio ilegal de fauna silvestre. Ainda assim, a reincidência segue alta e as punições nem sempre são suficientes para inibir a prática.

Seja no passado ou no presente, os casos revelam que o desafio da proteção animal é contínuo e estrutural. No Pará, ele se manifesta em rotas de tráfico, feiras clandestinas, dentro de casas e, às vezes, em espaços onde se espera proteção.

A cada apreensão, não se contabiliza apenas um resgate, mas um retrato da falha coletiva em proteger a biodiversidade. Sem avanço na fiscalização, na punição e na conscientização, a fauna amazônica seguirá pagando em silêncio o preço de um crime que insiste em se repetir.

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