• 27 de abril de 2026

Você salvaria mais vidas ou mais anos de vida? Estudo global revela como as pessoas realmente pensam

The New York Times via O Globo

Imagine uma escolha difícil. Você pode salvar uma pessoa que provavelmente viverá mais 30 anos. Ou pode salvar várias pessoas que podem viver mais dez anos cada. Devemos priorizar salvar mais vidas — ou mais anos de vida? Esse tipo de decisão está no centro de como os sistemas de saúde fazem escolhas.

Mas será que as pessoas realmente concordam com esse princípio? Um novo estudo internacional — baseado no que as pessoas nos disseram durante a pandemia de COVID — sugere que a resposta é mais complexa do que essa simples troca sugere.

Em muitos países, as decisões sobre gastos com saúde são guiadas por um conceito conhecido como “ano de vida ajustado pela qualidade”, ou QALY. Em termos simples, essa abordagem busca maximizar o número total de anos de vida saudável gerados por um sistema de saúde.

Isso geralmente significa priorizar tratamentos que proporcionem mais anos de vida no total. Salvar alguém com mais anos pela frente costuma ser visto como gerar mais valor do que salvar alguém com menos tempo restante. Na prática, isso pode significar priorizar pacientes mais jovens em relação aos mais velhos.

Esse tipo de raciocínio é usado pelo NICE, no Reino Unido — e por outras agências de avaliação de saúde ao redor do mundo — para decidir quais medicamentos devem ser financiados. Mas isso se baseia em uma suposição ética implícita: a de que maximizar o total de anos de vida é o objetivo correto.

Nossa pesquisa fez uma pergunta simples: as pessoas comuns realmente concordam?

Para descobrir, realizamos um grande experimento com mais de 14 mil pessoas em 12 países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos, China, Brasil e Uganda.

Os participantes foram convidados a imaginar uma vacina que salva vidas, mas que só poderia ser aplicada a um grupo. Eles tinham que escolher entre vacinar uma pessoa de 55 anos (com cerca de 30 anos de vida restantes) ou uma ou mais pessoas de 75 anos (com cerca de dez anos restantes cada).

Os cenários foram baseados na COVID, mas a questão era mais ampla: como devemos equilibrar salvar vidas versus salvar anos de vida?

Ao variar o número de pessoas mais velhas, conseguimos estimar quantas vidas os participantes estavam dispostos a “trocar” para salvar uma pessoa mais jovem.

Os resultados revelam um padrão claro — e que não é totalmente consistente com os valores baseados em QALY que sustentam muitas decisões de financiamento em saúde.

As pessoas não pensam apenas em termos matemáticos

A maioria das pessoas preferiu salvar a pessoa mais jovem. Cerca de dois terços dos entrevistados escolheram vacinar o indivíduo de 55 anos em vez de um único de 75.

No entanto, quando confrontadas com escolhas mais difíceis, as pessoas não agiram como se estivessem tentando maximizar os anos de vida. Se fosse esse o caso, elas estariam dispostas a sacrificar cerca de três pessoas de 75 anos para salvar uma de 55 (já que a proporção de 30 anos para 10 anos é de 3 para 1). Na prática, estavam dispostas a trocar menos.

Em média, entre os países, as pessoas aceitariam trocar cerca de duas vidas e meia de idosos para salvar uma vida mais jovem. Em outras palavras, as preferências do público ficam em algum ponto entre tratar todas as vidas como iguais e maximizar estritamente o total de anos de vida. Elas não se alinham completamente com nenhum dos dois extremos.

A análise fica ainda mais interessante quando olhamos além da idade. Em algumas versões do experimento, também variamos se as pessoas hipotéticas estavam trabalhando. Isso fez muita diferença. Quando ambos tinham o mesmo status de emprego, uma pessoa de 55 anos era considerada aproximadamente equivalente a pouco mais de duas pessoas de 75.

No entanto, quando a pessoa mais jovem estava trabalhando e a mais velha não, a diferença aumentava significativamente — as pessoas estavam dispostas a sacrificar mais de três vidas de idosos para salvar o trabalhador mais jovem. E quando a situação se invertia — com o idoso trabalhando e o mais jovem não — muitos participantes preferiam salvar o mais velho.

Isso sugere que as pessoas não estão pensando apenas na expectativa de vida. Elas também consideram fatores sociais mais amplos, como contribuição, necessidade percebida ou senso de justiça.

Um descompasso entre políticas e valores públicos

Essas descobertas levantam uma questão desconfortável. Se os sistemas de saúde são projetados para maximizar anos de vida, mas o público valoriza algo mais complexo, existe um desalinhamento entre as políticas e as preferências da sociedade?

Nossos resultados indicam que sim. As pessoas se importam com a expectativa de vida — vidas mais jovens geralmente são priorizadas. No entanto, também atribuem peso à justiça, ao contexto e aos papéis sociais. Suas preferências são mais nuançadas do que a regra rígida de “maximizar anos de vida” presente em muitos modelos de decisão em saúde.

Isso não significa que decisões em saúde devem simplesmente seguir a opinião pública. São escolhas éticas complexas, e o julgamento de especialistas continua sendo essencial.

Ainda assim, ignorar completamente os valores da população também pode ser problemático. Políticas que parecem intuitivamente injustas podem minar a confiança — algo fundamental para a sustentabilidade de instituições e políticas públicas.

Em vez de abandonar abordagens como os QALYs, uma opção pode ser complementá-las. Tomadores de decisão poderiam incorporar mais claramente a visão do público por meio de grupos de discussão, painéis cidadãos ou outros métodos que equilibrem eficiência e justiça.

Outra possibilidade é reconhecer que não existe uma única resposta correta. Diferentes sociedades podem, de forma legítima, traçar limites diferentes — e mesmo dentro de um país, as opiniões variam de acordo com idade, posicionamento político e experiências pessoais.

Nosso estudo mostra que as pessoas não enxergam essas decisões de forma puramente matemática. Diante de escolhas reais, elas ponderam vidas, anos e contexto social ao mesmo tempo. E, no fim das contas, isso pode refletir de forma mais realista a complexidade ética que está no coração dos sistemas de saúde.

Redação Cidade 091 com informações de O Globo.

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