- 5 de abril de 2026
Belém concentra crianças não alfabetizadas, prejudica indicador no Pará e expõe a força da desigualdade
Belém aparece no centro do desafio da alfabetização no Pará. A capital concentra sozinha cerca de 10% das crianças não alfabetizadas do estado, segundo o Indicador Criança Alfabetizada (ICA), divulgado na semana passada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O dado reforça o peso da cidade no desempenho estadual e revela um cenário de forte desigualdade entre municípios.
Criado para medir o percentual de alunos do 2º ano que sabem ler e escrever na idade adequada, o indicador mostra que o Pará alcançou cerca de 48% de crianças alfabetizadas em 2024, abaixo da meta nacional e distante do objetivo de 80% até 2030. Mas é ao olhar município por município que o retrato se torna mais preocupante, e é a situação de Belém que piora o panorama.
Dados do ICA mostram que dezenas de cidades paraenses têm menos de 40% das crianças alfabetizadas. Entre os piores resultados estão: Curralinho (24%), Jacareacanga (25%), Melgaço (29%), Oriximiná (31%) e São Félix do Xingu (31%).
Esses municípios fazem parte de um grupo maior: 37 cidades alfabetizam menos de 40% dos alunos, evidenciando um quadro crítico, especialmente em regiões isoladas, como o Marajó e áreas do interior profundo.
Na outra ponta, embora ainda longe de padrões ideais, alguns municípios conseguem desempenho relativamente melhor, com taxas acima de 60% e até superiores a 70%. Entre os destaques estão: Parauapebas, Marabá, Altamira, Ananindeua e Santarém.
Essas cidades aparecem entre os principais polos urbanos e econômicos do estado e encontram melhores condições estruturais de ensino, o que ajuda a explicar os resultados superiores.
Desigualdade territorial
O contraste entre os extremos revela que os municípios com piores índices são, em geral, mais isolados, com população ribeirinha ou rural e maior vulnerabilidade social. Já os melhores resultados estão em cidades com maior infraestrutura, arrecadação e redes educacionais mais estruturadas.
No total, 90 dos 144 municípios paraenses não atingiram a meta de alfabetização em 2024, o que mostra que o problema é amplo e persistente. Por isso, o papel de Belém é decisivo.
Mesmo sem estar entre os piores percentuais, Belém se destaca negativamente por outro motivo: o volume absoluto. A capital reúne uma parcela significativa das crianças que não aprenderam a ler e escrever na idade certa, o que a torna estratégica para qualquer avanço no estado.
Isso significa que políticas públicas focadas em Belém, especialmente nas áreas mais vulneráveis da cidade, podem ter impacto direto no desempenho geral do Pará, melhorando o quadro.
No mapa da alfabetização, o estado combina bolsões críticos no interior com um fator decisivo na capital. E é justamente aí que o desafio se concentra: sem melhorar Belém, o Pará dificilmente avançará de forma consistente no indicador nacional.