• 22 de março de 2026

Pará concentra parte decisiva dos manguezais do Brasil, revela estudo sobre ecossistemas

Reprodução: Semas

O Pará aparece entre os maiores detentores do ecossistema de manguezais no país, que soma 1,2 milhão de hectares, e revela contradições entre a proteção formal e as ameaças crescentes na Amazônia costeira. O novo mapeamento lançado por Ibama e Ministério do Meio Ambiente redesenha o peso dos manguezais brasileiros e coloca o Pará no centro dessa geografia. 

O país abriga 1.229.644 hectares de manguezais distribuídos em mais de 11 mil fragmentos, com forte concentração no Norte. Nesse cenário, o litoral amazônico, especialmente Pará, Amapá e Maranhão, responde por cerca de 78% de toda a cobertura nacional.

Esse dado ajuda a dimensionar o protagonismo paraense. O estado aparece entre os três maiores territórios de manguezais do Brasil, atrás apenas do Maranhão. Trata-se de uma faixa contínua de ecossistemas que acompanha o chamado “arco amazônico costeiro”, considerado um dos mais preservados do planeta.

Gigante silencioso 

Embora o levantamento não detalhe o número exato por estado na divulgação inicial, estudos anteriores e a própria hierarquia apresentada pelo governo indicam que o Pará concentra centenas de milhares de hectares de manguezais, compondo um dos maiores blocos contínuos desse ecossistema no mundo.

Essa concentração não é trivial. Os manguezais funcionam como: berçário de espécies marinhas; barreira natural contra erosão e avanço do mar; reservatório de carbono (“carbono azul”) com alta capacidade de mitigação climática. Em escala nacional, mais de 90% dos manguezais estão nas regiões Norte e Nordeste, o que reforça o peso estratégico da costa paraense dentro da agenda ambiental brasileira.

O novo mapeamento aponta que 82% dos manguezais brasileiros estão dentro de Unidades de Conservação, como reservas extrativistas e áreas de proteção ambiental. No Pará, essa proteção se materializa principalmente em Resex marinhas, que combinam conservação com uso tradicional por comunidades locais. Na prática, isso significa que grande parte dos manguezais paraenses está formalmente protegida, um indicador acima da média de outros biomas brasileiros.

Mas a proteção legal não elimina pressões. Pelo contrário: o próprio levantamento destaca que o monitoramento contínuo foi criado justamente para acompanhar ameaças crescentes, como expansão urbana em áreas costeiras, avanço da aquicultura (especialmente a carcinicultura, que é o cultivo comercial de camarões), desmatamento e ocupação irregular, além do impacto indireto de grandes obras na Amazônia.

Conservação e uso

No Pará, os manguezais são também território produtivo. Comunidades extrativistas dependem diretamente desses ambientes para atividades como a pesca artesanal, a coleta de caranguejo e a mariscagem. Esse uso tradicional é reconhecido como parte da estratégia de conservação, um modelo que explica a predominância de unidades de uso sustentável no estado.

Ao mesmo tempo, há tensão crescente entre economia e preservação. Registros recentes em redes sociais e estudos ambientais apontam áreas sob pressão direta, com perda de vegetação e alteração de cursos d’água em zonas costeiras.

O novo mapeamento integra o ProManguezal, programa federal que prevê, entre outras metas, a recuperação de 17 mil hectares até 2030. Nesse esforço, o Pará tende a ser peça-chave, tanto pela extensão territorial quanto pelo potencial de restauração.

Isso porque os manguezais amazônicos estão entre os mais eficientes do mundo na captura de carbono, característica que os coloca no centro das políticas climáticas. A atualização dos dados também inaugura um modelo de monitoramento contínuo por satélite, com uso de imagens do Sentinel-2, permitindo identificar mudanças em escala fina e orientar ações públicas.

Trocando em miúdos, o estado abriga uma das maiores reservas contínuas de manguezais do planeta, com alta taxa de proteção e relevância global, mas também  enfrenta pressões típicas de regiões em desenvolvimento, onde infraestrutura, expansão urbana e atividades econômicas disputam espaço com a conservação.

A nova fotografia oficial dos manguezais brasileiros, além de dimensionar o tamanho desse patrimônio, deixa explícito o papel do Pará como fronteira decisiva entre preservação e transformação. Se o Brasil lidera em extensão de manguezais, é no litoral paraense que essa liderança ganha forma concreta, entre rios largos, ilhas, comunidades tradicionais e áreas ainda intactas. Só não se avaliou ainda por quanto tempo esse patrimônio resistirá. Se resistir.

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