• 14 de março de 2026

Renner recolhe camisetas com a frase ‘regret nothing’, usada por acusado de estupro

Foto: Foto: Ana Branco / Agência O Globo

A Renner suspendeu a venda e retirou de suas lojas camisetas com a frase “regret nothing” (“não se arrependa de nada”, em português), expressão frequentemente associada a fóruns da chamada “machosfera”, universo de comunidades online que reúnem grupos masculinistas e propagam discursos de ódio contra mulheres.

Apesar da postura da varejista, O GLOBO encontrou camisetas com frases relacionadas ao movimento masculinista em marketplaces como Mercado Livre e Amazon, incluindo referências aos red pills e à sigla MGTOW (Men Going Their Own Way), que prega o afastamento de relacionamentos com mulheres.

A expressão “regret nothing” ganhou repercussão recentemente depois que Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, usou essa mesma blusa ao se entregar à polícia. Ele é réu por estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro.

A frase aparece com frequência em conteúdos ligados ao influenciador americano Andrew Tate, que reúne milhões de seguidores nas redes sociais e é declaradamente misógino. O coach responde na Justiça a acusações de estupro, tráfico humano e exploração sexual.

Procurada, a Renner disse repudiar qualquer forma de violência ou conduta ofensiva e que o processo criativo da peça não tem relação com o movimento red pill. “Toda a base conceitual e estética foi pautada em manifestações culturais contemporâneas, como poesias e composições musicais”, disse em nota.

Na Amazon, a busca do GLOBO encontrou alguns produtos de cunho masculinista. Foram encontrados anúncios de camisetas com a estampa “MGTOW”.

Em outra camiseta encontrada na plataforma, aparece a frase “Facts Don’t Care About Your Feelings” (Fatos não se importam com os seus sentimentos, em português), atribuída ao comentarista americano Ben Shapiro, mas frequentemente usada em fóruns da machosfera. A empresa não retornou até o fechamento da reportagem.

No Mercado Livre, a pesquisa também mapeou camisetas com a estampa “MGTOW”. Inclusive, em um dos anúncios, um consumidor avaliou o produto com a seguinte frase: “Bendito seja o homem que segue seu próprio caminho”, enquanto outros agradeceram em nome da “causa”.

Foi encontrada também uma camiseta com referência mais direta ao movimento red pill, com os dizeres: “Don’t be a beta, take a red pill” (“Não seja um beta, tome a pílula vermelha”). Em comunidades online masculinistas, “beta” é usado de forma pejorativa para descrever homens submissos ou fracos.

Segundo as políticas de cadastro de anúncios do Mercado Livre, os usuários devem manter uma comunicação “respeitosa e cordial” em todas as áreas da plataforma — incluindo anúncios, conteúdos patrocinados, mensagens, perguntas e respostas e avaliações.

As regras também proíbem o uso de linguagem ofensiva ou de “siglas que possam ser interpretadas como insultos”, além da publicação de conteúdos violentos ou discriminatórios, seja por motivo de gênero, religião, idade ou outros.

Procurado, o Mercado Livre disse repudiar de qualquer forma de incitação à violência, discriminação ou discurso de ódio contra pessoas ou grupos, e os itens mencionados estão sendo removidos da plataforma. “A empresa mantém diretrizes e políticas que estabelecem critérios claros para a comercialização de produtos e disponibiliza canais de denúncia para reportar conteúdos que violem essas regras”, continua a nota.

Em todos os anúncios da plataforma há a opção “denunciar”, por meio da qual qualquer usuário pode sinalizar a venda de produtos ilegais ou em desacordo com as políticas do site. Anúncios que não atendem a essas diretrizes são removidos, e os vendedores responsáveis ficam sujeitos às medidas previstas nas políticas do marketplace, disse a empresa.

Já de acordo com as regras das páginas de produtos da Amazon para itens vendidos no Brasil, não é permitido incluir, em títulos, descrições, listas com marcadores ou imagens das páginas de detalhes dos produtos, conteúdos que incentivem ódio ou discriminação racial, nem materiais ofensivos.

O que pode e o que não pode?

As advogadas Mariana Borges e Stephanie Eschiapati, do escritório Lopes Muniz, explicam que não há uma lei que proíba a venda de produtos associados ao movimento “red pill” ou a outras vertentes masculinistas. Esses movimentos estão amparados pelo princípio constitucional da liberdade de expressão, que, no entanto, não é absoluto.

— Quando um produto contém mensagem que ultrapassa o campo da opinião e passa a estimular discriminação, hostilidade ou violência, pode ser interpretado como incitação de discurso de ódio e/ou violência de gênero e acarretar consequências administrativas ou jurídicas — diz Mariana.

Ela lembra que as plataformas têm políticas internas sobre conteúdos e itens permitidos e podem remover anúncios após denúncias pelos consumidores.

— A retirada deverá ser determinada por ordem judicial, desde que demonstrado que a expressão, ainda que aparentemente neutra, esteja inserida em um contexto de discurso discriminatório ou de incitação à violência, como se discutiu recentemente no caso da camiseta com a frase “regret nothing”.

Universo masculinista

Entre os grupos mais conhecidos desse universo masculinista online estão os chamados red pills, que dizem incentivar os homens a “despertar para a realidade”. A expressão faz referência ao filme The Matrix, no qual a pílula vermelha revela a verdade, conta Thayz Athayde, do Grupo de Estudos em Gênero, Sexualidade e Interseccionalidades (Geni) da Uerj.

Nos fóruns ligados ao movimento, “tomar a red pill” significa passar a enxergar as relações de gênero a partir da ideia de que a sociedade favorece as mulheres e de que os homens estariam sendo enganados por discursos feministas.

— O movimento masculinista já existe há anos. Há quinze anos, já era possível ver isso. O movimento red pill é mais recente e surge a partir do movimento masculinista. É mais centrado na internet e sabemos que muitos adolescentes são adeptos a ele. Olha só onde essa informação está chegando e o problema que temos em relação às mídias — diz a pesquisadora.

Thayz acrescenta que, apesar de ser comumente apresentado como uma novidade, o movimento red pill não sai dos mesmos moldes do masculinismo tradicional:

— O que é um homem sem sentimentos ou arrependimentos? Esses fóruns falam bastante sobre como as mulheres não os querem, como elas são livres. Parece que é novo, mas, na verdade, é velho.

Já Giane Silvestre, pesquisadora do NEV, diz que o crescimento dos masculinistas acontece por meio de duas frentes, sendo o primeiro deles o avanço da internet. Esses discursos tendem a ganhar força em canais de menor visibilidade, como o Discord, e também em um contexto de desregulação das redes sociais.

— Manifestações de machismo e misoginia sempre existiram, mas a internet potencializa não só as manifestações, mas o agrupamento das pessoas com esse pensamento. Tanto o agrupamento, como o recrutamento de outras pessoas que compartilham dessas ideias.

(com informações de O Globo)

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