- 12 de março de 2026
Pressão alta avança em silêncio em Belém e médicos alertam: doença pode matar sem dar sinais
Silenciosa, comum e muitas vezes ignorada, a hipertensão tem avançado entre os moradores de Belém e acende um alerta entre especialistas da área da saúde. A chamada pressão alta é considerada a doença crônica mais prevalente no Brasil e o principal fator de risco para infarto e acidente vascular cerebral (AVC), duas das principais causas de morte no país.
Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 30% da população brasileira são hipertensos, o que significa que milhões de pessoas convivem com o problema. Em Belém, o cenário preocupa porque muitos pacientes descobrem a doença apenas quando já apresentam complicações mais graves.

Paulo Roberto Alves, 55 anos, descobriu que era hipertenso numa consulta com o dentista. “Eu ia fazer um procedimento de implante e o doutor mediu minha pressão, o que é de praxe. Até ele ficou assustado”, conta Paulo. “Estava dando quase 20 por 12!”, lembra. O médico pediu pra ele correr para uma UPA.
Depois da emergência, Paulo Roberto precisou ir a um cardiologista e teve uma péssima notícia para quem gosta de tomar uma cervejinha e será forçado a mudar hábitos. O consumo da cerveja por hipertensos eleva a pressão arterial por meio da vasoconstrição e do estímulo ao sistema nervoso, aumentando o risco de infarto e AVC.
O álcool também pode anular ou reduzir a eficácia de medicamentos anti-hipertensivos, dificultando o controle da doença. Além disso, a bebida é calórica, contribuindo para o ganho de peso e sobrecarga do sistema cardiovascular. Mesmo em pequenas quantidades, o uso frequente pode agravar a arritmia e causar danos renais e hepáticos.
Um dos principais desafios é justamente o diagnóstico tardio. Estima-se que até 90% dos pacientes não apresentem sintomas, podendo conviver por anos com a pressão elevada sem saber. Quando surgem sinais como dor de cabeça intensa, tontura, falta de ar ou visão turva, muitas vezes o quadro já evoluiu para situações mais delicadas.
Esse atraso no diagnóstico aumenta o risco de problemas cardiovasculares. A hipertensão está diretamente ligada a infartos, acidentes vasculares cerebrais, insuficiência cardíaca e doenças renais. Em casos graves, pode comprometer os rins a ponto de o paciente precisar de diálise, além de acelerar a aterosclerose, que nada mais é que o acúmulo de gordura nas artérias, além de aumentar o risco de aneurismas.
Aumento de atendimentos
O crescimento da doença também aparece nas estatísticas do sistema público de saúde. Entre 2022 e 2025, os atendimentos ambulatoriais relacionados à hipertensão no Sistema Único de Saúde (SUS) quase triplicaram no Brasil, passando de 916,7 mil para 2,6 milhões.
Em Belém, a maior parte dos pacientes com pressão alta é acompanhada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), porta de entrada do SUS. De acordo com especialistas, cerca de 75% dos hipertensos brasileiros fazem tratamento pelo sistema público, que oferece gratuitamente medicamentos para controle da doença.
A boa notícia é que a maioria dos casos pode ser controlada na própria atenção básica. Apenas entre 10% e 15% dos pacientes precisam de atendimento em serviços de maior complexidade, como cardiologistas ou hospitais especializados.
Falhas no rastreamento
Apesar disso, médicos apontam que o rastreamento da doença ainda é falho. Muitas pessoas passam anos sem medir a pressão arterial regularmente, o que dificulta o diagnóstico precoce. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, recomenda que a pressão seja aferida em todas as consultas médicas, mesmo quando o paciente procura atendimento por outro motivo. Essa medida simples pode fazer a diferença entre descobrir a doença cedo ou apenas quando ela já causou danos ao coração, ao cérebro ou aos rins.
A hipertensão também está por trás de grande parte das mortes por doenças cardiovasculares. No Brasil, problemas como infarto e AVC figuram entre as principais causas de óbito, e a pressão alta é um dos fatores mais associados a essas ocorrências. Em cidades grandes como Belém, fatores como alimentação rica em sal, sedentarismo, estresse, consumo de álcool e tabagismo ajudam a agravar o problema.
O consumo elevado de alimentos processados e o uso excessivo de sal pelos paraenses em preparações tradicionais, como o charque, o camarão seco e a maniçoba, por exemplo, elevam o aporte de sódio na dieta local. Esse hábito sobrecarrega o sistema cardiovascular, favorecendo a retenção de líquidos e o aumento da pressão arterial.
Mesmo com o consumo de alimentos naturais como o açaí, a adição de acompanhamentos calóricos e salgados na tradição local intensifica o risco de hipertensão. Assim, o equilíbrio entre a cultura alimentar paraense e o controle do sódio é vital para prevenir doenças crônicas em Belém. É sempre bom lembrar: quando o inimigo é silencioso, ignorá-lo pode custar muito caro. Às vezes, custa a própria vida.