• 10 de março de 2026

Da bomba no Oriente Médio à bomba do posto, a guerra lá fora afeta o nosso bolso aqui em Belém

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Se você abasteceu o carro em Belém nos últimos dias e sentiu que o preço da gasolina parece ter subido mais rápido que o normal, prepare-se: vai piorar. Sabe por que um conflito a mais de 10 mil quilômetros de distância interfere no tanque do seu velho Gol de guerra? Por causa do domínio sobre o petróleo, é claro.

A recente escalada militar no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, gerou um choque no mercado internacional de petróleo. O temor de interrupções no fornecimento fez o preço do barril disparar, ultrapassando os US$ 100, um patamar que não era visto desde 2022.

Parte dessa tensão está ligada ao Estreito de Ormuz, uma passagem marítima estratégica por onde circulam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Com ataques e ameaças na região, o tráfego de petroleiros caiu drasticamente, reduzindo a oferta global e elevando os preços da commodity. Quando o petróleo fica mais caro no mercado internacional, toda a cadeia de combustíveis sente o impacto. E ele chega aqui no posto da avenida Augusto Montenegro, ou do Guamá.

A gasolina é derivada do petróleo, todo mundo sabe. E, mesmo sendo produtor, o Brasil ainda depende de importações para abastecer os nossos veículos. Pois toda a gasolina vendida aqui acompanha a dinâmica internacional de preços. Se o barril sobe lá nos quintos dos infernos em guerra, as refinarias de todo o mundo começam a pagar mais caro pelo petróleo. O impacto não aparece imediatamente no posto, mas em no máximo seis meses o efeito vai chegar ao consumidor paraense.

Os primeiros sinais já aparecem. Levantamento da Agência Nacional do Petróleo mostrou a gasolina subindo de R$ 6,28 para R$ 6,30 em média no país neste início de março. Parece pouco, mas aumentos sucessivos podem pesar muito. Um carro 1.0 costuma fazer algo entre 10 e 14 km por litro em Belém, dependendo do trânsito e da buraqueira no caminho. Supondo um consumo médio de 12 km/l e um uso mensal de 800 km, o motorista gastaria cerca de 67 litros de gasolina por mês. Se o litro sobe R$ 1, algo que alguns analistas consideram possível em cenários extremos de guerra prolongada, o impacto direto seria de R$ 67 a mais por mês. Ou seja: R$ 804 a mais por ano. É como se o motorista ganhasse um novo boleto mensal disfarçado pra pagar.

Custos indiretos

Mas não acabou o drama. O combustível não afeta apenas quem dirige. Ele entra no custo de quase tudo: transporte de alimentos, frete de mercadorias, passagem de ônibus, entrega por aplicativo, até no transporte do pobre do açaí, que não tem nada a ver com essa guerra.

Quando o petróleo sobe, a inflação costuma acompanhar. Economistas alertam que a disparada do preço da commodity pode pressionar preços e até influenciar decisões de juros no Brasil. A gasolina mais cara pode encarecer desde o peixe na feira até a passagem do ônibus de cada dia. O motorista que cruza a avenida Nazaré para trabalhar, leva os filhos à escola de manhã cedo ou vai de carro tomar um tacacá na Duque no fim da tarde não está nem aí para a  geopolítica, as rotas marítimas ou as disputas estratégicas no Golfo Pérsico.

Mas, de certa forma, o tanque do carro dele está conectado ao mapa do planeta. Ou do fim do mundo, sei lá.

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