- 4 de março de 2026
O rio do Ruy
Quando aceitei o convite do amigo Tito Barata para ajudar na revisão do livro ”Esse rio é minha rua”, do irmão dele, Ruy Antônio Barata, imaginei um trabalho técnico: vírgulas no lugar, concordâncias atentas, algum zelo na lapidação final. Não foi nada disso.
Desde as primeiras páginas, percebi que estava diante de algo maior que um livro. Era quase uma travessia. E essa travessia tem encontro marcado com o público nesta sexta-feira, na Livraria da Universidade Federal do Pará, nos Mercedários, em Belém, às 18h. O lançamento será uma verdadeira roda de memória, dessas em que a cidade se reconhece contando as próprias histórias.
O texto já chegou às minhas mãos com elegância rara, escrita segura, memória organizada, como se o primeiro passo do Ruy tivesse sido arrumar fotografias antigas sobre a mesa e contar um causo sobre cada uma delas.
Meu papel era cuidar da forma, mas o conteúdo me atravessava sem pedir licença. Enquanto revisava, eu também caminhava. Andei por uma Belém efervescente, política e culturalmente pulsante. Visitei Santarém com seus dias largos e Óbidos de silêncios atentos. Entrei no clima de tensão das disputas políticas, no auge e na derrocada do baratismo, nos marcos do movimento estudantil e nos anos de chumbo da ditadura. Tudo sem estridência, sem exagero. Era apenas a vida, contada por quem a viu de perto, e eu espiando na janela lateral.
Nascido em 1965, cheguei ao Pará uma década depois. Só nos anos 80, já jornalista, comecei a entender a grandeza deste estado. Ao revisar o livro, senti que recuperava um tempo que não vivi, mas que, de algum modo, também me pertencia. A escrita de Ruy tem esse condão: ela nos coloca ao lado dos personagens, mesmo daqueles que conhecíamos apenas das prateleiras da história. De repente, estamos lá. Ouvindo. Sentindo. Pertencendo.
Há uma delicadeza firme na maneira como ele entrelaça a memória pessoal com a história coletiva. Não é apenas a lembrança de uma família. É a formação de um povo. Cada episódio ajuda a compreender quem somos. Cada cena reforça que identidade não nasce pronta. Ela se constrói com escolhas, perdas, coragem e permanência.
“Este rio é minha rua”, com alusão à canção que completa 50 anos, escrita pelo pai e pelo irmão, é um passeio pela correnteza da história desde os anos 50, com familiaridade ímpar. Um mergulho conduzido por quem cresceu na linha do tempo e decidiu olhar para trás com honestidade. A narrativa não se impõe. Ruy nos convida. E, quando percebemos, já estamos dentro dela.
Contribuir com o projeto, ainda que timidamente, foi um belo exercício de escuta e respeito. Um aprendizado. Revisar tornou-se partilha. Ao final, tive a sensação de que não ajudei apenas a cuidar de um texto, mas caminhei pela história recente do Pará, tendo Ruy como guia. E saí diferente. Saí melhor.
Se um povo é feito de memória, é na história que reconhecemos quem somos e de onde viemos. O passado é o chão onde se constrói a identidade e cada lembrança guarda um pedaço de nós.
Depois que cada leitor ler e fechar o livro, deve aproveitar essa verdade serena que Ruy grudou na gente. As grandes histórias não precisam gritar para permanecer. Elas falam baixo, como quem conversa na beira do rio ao cair da tarde, numa calçada ou num quintal. E é justamente por isso que atravessam o tempo. Algo que lembra aquele jeito simples, límpido e profundamente humano de Mário Quintana: contar a vida como quem partilha um segredo. E, sem perceber, eternizá-la. É o que Ruy Antônio faz. Obrigado, Ruy.