- 27 de fevereiro de 2026
Com mais de mil incêndios em dois anos, Belém trava uma batalha silenciosa por segurança contra o fogo
O incêndio que destruiu três casas de madeira na manhã desta sexta-feira (27), na Pedreira, não foi um episódio isolado. É mais um alerta numa cidade onde o fogo, quando surge, encontra vulnerabilidades antigas: instalações elétricas frágeis, moradias adensadas e uma infraestrutura de combate que ainda enfrenta limitações.
Entre 2023 e 2024, mais de 1.000 incêndios em imóveis foram registrados na Região Metropolitana de Belém. Foram 506 em 2023 e 496 em 2024, segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Pará (CBMPA). Até fevereiro de 2025, já eram 72 ocorrências contabilizadas no ano.
No Centro de Belém e em bairros mais antigos, a rede de hidrantes é apontada por especialistas como um dos gargalos estruturais. Muitos equipamentos estão conectados à rede convencional de abastecimento, que não foi dimensionada para garantir pressão e vazão ideais em situações de combate prolongado. Em áreas de ruas estreitas e construções geminadas, minutos fazem diferença e a dependência exclusiva dos caminhões-tanque pode retardar a contenção.
“A prevenção começa pela cidade que planejamos. Em áreas centrais com edificações antigas, muitas ligações de água não suportam a demanda de combate a incêndios”, alerta o ex-presidente da Comissão Municipal de Defesa Civil de Belém (CONDEC), tenente-coronel José Luiz Ruas. Além da cobertura desigual, há relatos de baixa pressão em determinados pontos e necessidade de manutenção periódica. Para os bombeiros, a combinação de rede limitada, moradias de madeira e fiação exposta amplia o potencial de propagação das chamas.
Risco na tomada
Curtos-circuitos e sobrecarga elétrica aparecem entre as causas mais frequentes dos incêndios urbanos em Belém. Casas antigas, adaptadas para comportar múltiplos eletrodomésticos modernos, tornam-se vulneráveis. Um ventilador, um benjamin improvisado na tomada, um fio desencapado são elementos banais que podem dar início a uma tragédia.
Foi o que ocorreu em 26 de dezembro de 2025, no bairro do Marco. Um incêndio atingiu oito casas. O auxiliar de serviços gerais Gilvan Cleber Pedroso Corrêa, 43, acordou com o calor. “Eu me espantei com a quentura do fogo, que já estava na metade da cama. O ventilador, que ficava perto da cama, pode ter superaquecido e pegado fogo, e eu não vi. Tentei apagar as chamas e não consegui. Só deu tempo de acordar o meu filho e mandar ele descer. Foi muito rápido.”
O relato resume a dinâmica mais comum dos incêndios urbanos. Começam discretos e, quando percebidos, já avançaram demais. Quando a casa vira cinza, a resposta precisa ser rápida. Além do atendimento emergencial pelo 193, famílias atingidas podem buscar a Defesa Civil municipal para vistorias e encaminhamento social.
No âmbito estadual, o programa Sua Casa, da Companhia de Habitação do Estado do Pará (Cohab), concede benefício financeiro para compra de materiais de construção e pagamento de mão de obra, possibilitando a reconstrução de imóveis destruídos por sinistros. O auxílio, destinado a famílias em situação de vulnerabilidade, já foi acionado em diferentes bairros da capital após incêndios de grandes proporções.
Na maioria das ocorrências, a principal ameaça à vida não é a chama, mas a fumaça. A inalação de monóxido de carbono pode provocar hipóxia em poucos minutos. Especialistas recomendam sair imediatamente ao perceber fumaça, manter-se próximo ao chão e jamais retornar ao imóvel antes da liberação oficial. Mesmo sem queimaduras aparentes, a exposição prolongada exige avaliação médica.
Belém no espelho
Belém avança, cresce, se verticaliza e se moderniza. Mas em vielas estreitas e em casas de madeira ainda se trava uma batalha silenciosa contra riscos antigos. Cada incêndio expõe não apenas fragilidades individuais, mas escolhas coletivas sobre planejamento urbano, fiscalização e investimento, nem sempre bem feitas pelo gestor de plantão, quando ele próprio não é o espelho da omissão.
Quando as chamas se apagam, ficam o cheiro de fumaça, as paredes negras e o silêncio de quem perdeu quase tudo. Fica também o questionamento sobre a capacidade da capital paraense evitar esses episódios com previsibilidade e planejamento.
Entre hidrantes insuficientes, fios improvisados e políticas que caminham mais devagar que o fogo, a cidade segue desafiada a proteger aquilo que tem de mais essencial: a vida humana.