• 23 de novembro de 2025

Racismo, xenofobia, covardia e a porta fechada do esquecimento

Reprodução

Os episódios recentemente relatados em Santa Catarina, desde manifestações racistas em um jogo de futebol até declarações do prefeito de Florianópolis sobre “devolver” migrantes para suas cidades de origem, expõem uma ferida social que muitos insistem em negar. É o avanço de uma cultura de exclusão, preconceito e desumanização. E isso é muito perigoso. 

É preciso dizer com todas as letras, sem risco de exagero ou omissão: racismo é crime, injúria racial é crime, xenofobia é crime. E mais que crime: são evidências de um pensamento autoritário que encontra, no medo e na ignorância, o terreno fértil para florescer.

Parece haver uma amnésia histórica contorcendo o pensamento de brasileiros que adotam o discurso xenofóbico como expressão da verdade. Esse esquecimento é profundamente conveniente – e mentiroso. Santa Catarina, é sempre bom lembrar, só existe como é hoje porque foi formada por ondas e ondas de imigrantes: alemães, italianos, poloneses, gaúchos, nordestinos e tantos outros.

Esquecer isso é apagar a si mesmo. É cuspir na própria história.

Não precisa cavar muito para encontrar, nos registros da memória, a leva de catarinenses que, nos anos 1970, migraram para o interior do Pará, e muitos criaram seus filhos em Belém, em busca de oportunidades e de terras para produzir. Foram recebidos com trabalho, convivência e humanidade. A mesma humanidade que agora alguns negam aos migrantes que chegam ao Sul.

Quando autoridades públicas sugerem que pessoas em situação de vulnerabilidade devem ser “devolvidas” aos lugares de origem, sob o pretexto de “organizar a cidade”, estão, na prática, ecoando uma política ultrapassada e perigosa: a de que algumas vidas valem menos que outras.

E é preciso dizer de forma brutalmente clara: essa retórica de expulsão, esse desejo de varrer pobres, migrantes e vulneráveis como se fossem lixo urbano, é a cara mais evidente de um covarde autoritarismo.

É covarde, porque não tem coragem de enfrentar os verdadeiros problemas: desigualdade, falta de política pública, ausência de planejamento e então busca um bode expiatório fácil. Alguém que não pode se defender. 

É covarde, porque veste a máscara da “ordem” para esconder o impulso mesquinho de excluir, humilhar e hierarquizar vidas. Quem se apega a esse discurso não quer proteger a cidade. Quer proteger seus privilégios, e para isso está disposto a sacrificar a dignidade alheia. 

É covarde, porque se utiliza da velha lógica fascistoide da purificação social, reciclada e empacotada como “gestão”. 

Por favor, não nos enganemos. Quando uma sociedade aceita tratar seres humanos como problema, ela começa a destruir a si mesma. E convenhamos: migrar para buscar trabalho nunca foi crime, mas um ato de coragem. Criminoso é desumanizar. Uma cidade não se engrandece expulsando quem precisa, mas sim acolhendo, integrando e oferecendo caminhos para que todos possam viver com dignidade.

Belém deu o exemplo ao mundo. Durante a COP30, a capital paraense mostrou ao planeta o que significa receber. Cidade que sempre foi porto e ponto de encontro de povos ribeirinhos, indígenas, nordestinos, sulistas, imigrantes de toda parte, nunca negou as origens e sempre demonstrou que acolher não é ameaça. É potência.

Enquanto isso, discursos de medo e exclusão ecoam no Sul como se fossem sinais de força. Mas não são. Na verdade, são sinais de fraqueza moral, de falta de empatia e do empobrecimento da nossa vida pública. Empatia não é utopia: é obrigação.

Quem propaga racismo, xenofobia ou qualquer forma de ódio social não está “defendendo valores”. Está atacando valores, aqueles que sustentam qualquer sociedade civilizada: respeito, convivência, solidariedade.

Santa Catarina não precisa de muros. Precisa de memória. Precisa de coragem para reconhecer que ninguém é de lugar nenhum sozinho. E precisa, urgentemente, de mais humanidade e, em alguns casos, serenidade, inteligência e humildade.

No fim, fica uma pergunta que nenhum cálculo político consegue esconder: que tipo de gente queremos ser? Belém já respondeu quando abriu os braços ao mundo na COP30. Respondeu com música, comida, calor humano e com aquele jeitinho paraense de dizer “ventimbora, a casa é tua”. Mesmo quando a casa é pequena, mesmo quando falta, mesmo quando dói. Porque quem conhece a dureza da vida sabe que ninguém deveria caminhar sozinho.

Santa Catarina, terra de migrantes, de chegadas e partidas, de esperanças empacotadas em malas improvisadas, também precisa lembrar de si mesma. Precisa olhar no espelho e reconhecer que sua história foi escrita por mãos vindas de todos os cantos.

Tenhamos orgulho do que há para se orgulhar, não de fetiches. A COP30 venceu a desconfiança e o descrédito. Superou o preconceito e a inveja. Pisoteou o racismo e a implicância. Apagou todos os incêndios, reais e metafóricos. 

Então, se existe um legado realmente digno de orgulho e inquestionável, não é o da exclusão, mas o da mistura. A oportunidade do encontro. A coragem de receber.

Porque as cidades não são muros. Elas são portas.

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