• 16 de novembro de 2025

O espelho quebrado da COP

Foto: Reprodução/Redes Sociais

editorial

Quando Belém se olha no espelho, em plena COP30, pode enxergar, à primeira vista, o reflexo de uma cidade que se preparou direitinho para receber, na porta de casa, o mais importante evento de todos os tempos. Os investimentos ultrapassaram os 5 bilhões de reais e contemplaram obras estratégicas de infraestrutura, determinantes para o sucesso da convenção, neste momento em que Belém está sob o olhar de todo o planeta.

Mas nesse mesmo espelho há cantinhos que, ao fisgarem olhos mais atentos, o chamado olhar periférico, haverão de revelar um abissal descompasso. De um lado houve um esforço hercúleo dos governos federal e estadual para deixar Belém digna de receber um evento dessa importância; do outro, existe uma apatia quase tísica de uma municipalidade que tenta a todo custo agarrar-se ao vagão expresso, mas tem os pés cimentados na estação da inércia. 

Não é preciso enxergar muito longe, para que as nódoas da zeladoria sejam vistas a olho nu. A carência de serviços de responsabilidade municipal, como a coleta de lixo, a drenagem essencial, a preservação do asfalto, o cuidado com as calçadas, a manutenção das paradas de ônibus, tudo isso denuncia a apatia municipal em um momento que a imagem de Belém está impactando o mundo.

A capital paraense já é o centro das atenções globais. A COP30 colocou a Amazônia no coração do debate climático mundial. No entanto, por trás das fachadas polidas, das obras de infraestrutura bilionárias e do brilho da diplomacia internacional, esconde-se a “Belém profunda”, uma realidade de desafios sociais crônicos que o holofote da conferência não conseguiu ofuscar. 

É gritante o contraste entre a cidade que o mundo está vendo e a cidade em que seus moradores vivem diariamente, porque a municipalidade não fez o dever de casa. O legado que será deixado pelas grandes obras com financiamento federal e estadual se perde na timidez e na omissão da gestão municipal, que deveria expressar seu valor, nessa hora pungente, com serviços básicos que deixou de executar.

Situações como ruas esburacadas, falta de esgoto mínimo, alagamentos, crescimento desordenado e áreas de ocupação miseráveis são a moldura de uma imagem clara da pobreza e da indignidade expostas diariamente nas ruas da nossa cidade. São a rachadura naquele cantinho do espelho. Lugares onde a população simples das classes menos favorecidas repete a rotina de abandono, risco e desigualdade e seus problemas crônicos, agora ao vivo para o planeta. 

A população, em sua maioria negra e de baixa renda, que vive em áreas de risco ambiental, é a primeira a sofrer com os impactos da crise climática. As imagens mostradas aqui não são antigas e sim recorrentes. Foram feitas na rua Quintino, bairro do Tapanã, em Belém. O  apagamento dessas pessoas que vivem em realidades como essa representa a fratura exposta.

A modernização da sala de estar é desafiada pela realidade da cozinha e do quarto dos fundos, dos corredores e do quintal. Esta Belém profunda é a Belém onde apenas seis em cada dez moradores têm acesso a esgoto tratado, colocando a capital entre as piores do Brasil em saneamento básico.

A ironia atinge seu ápice quando se considera que a conferência, cujo tema central é a mudança climática e a sustentabilidade, está acontecendo em uma cidade que falha em prover o básico para seus cidadãos mais vulneráveis, que são, paradoxalmente, os mais afetados pelos impactos da crise climática. E é ali, na periferia, que eles vivem, trabalham e criam seus filhos. 

A COP30 teria o potencial de, quando acabar, deixar um legado duradouro. Mas isso só ocorreria se a municipalidade entendesse o cascudo que está levando da realidade e, finalmente, cumprisse o seu papel, que vai muito além do TikTok.

Ignorar essa realidade é um ato de profunda injustiça e hipocrisia, que a grandiosidade da COP30 não consegue esconder. É urgente que a discussão vá além dos palcos e da mídia e chegue às ruas onde a vida real acontece, exigindo ações concretas e justas, ainda que tardias. A cidade real exige mais do que um brilho temporário e um post bonitinho. Exige soluções perenes das quais a prefeitura costuma fugir como o diabo da cruz.

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