• 23 de outubro de 2025

Feridas da mineração virão à tona na COP30, mas empresas correm para não queimar o filme

Reprodução

O Pará é o estado brasileiro mais exposto aos riscos das mudanças climáticas em regiões mineradoras. O alerta foi feito num relatório do Observatório da Mineração. O  documento deixa claro que no Pará há um perigo potencialmente maior de provocar desastres relacionados ao clima em áreas de mineração. 

De acordo com o estudo “Riscos Climáticos Cumulativos para Minerais de Transição no Brasil”, feito em parceria do Observatório da Mineração com o Mission Climate Project, da Inglaterra, as atividades de mineração, combinadas com a piora das condições climáticas, estão aumentando a insegurança hídrica, expondo comunidades a eventos climáticos mais extremos e aumentando os riscos socioambientais nos principais estados mineradores: Pará, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

O Pará é o mais vulnerável. Enfrenta hoje um aumento gradativo do calor, alterações no tradicional regime de chuvas, períodos de seca onde nunca havia ocorrido, tendo como consequência uma ameaça real às comunidades locais. 

E é justamente na COP 30 que estará em debate o papel da floresta tropical como regulador do clima global, criando um link importante entre a conferência e a mineração.

Paradoxo

Além disso, é evidente o paradoxo que coloca o Pará como sede da mais importante reunião do mundo sobre o clima e, ao mesmo tempo, o estado onde a extração mineral é responsável por desmatamento, desequilíbrio ambiental e ameaça às comunidades tradicionais e ecossistemas locais.

Não é só isso. Enquanto o Pará se apresenta como um dos principais fornecedores de minerais para a transição energética, “o país enfrenta uma pressão crescente para expandir as atividades de mineração em áreas críticas de biodiversidade”, adverte o relatório.

As mudanças climáticas, aponta o estudo, intensificam os riscos socioambientais. “A escassez de água, a alteração dos padrões climáticos e a degradação do ecossistema estão agravando as disputas existentes por terras e recursos, aumentando as pressões sobre as comunidades tradicionais”, aponta. “A falta de cumprimento das normas e a ausência de consentimento livre, prévio e informado aumentam ainda mais os riscos de remoção forçada e de conflitos”, reitera.

Fora isso, a intensa exploração mineral, principalmente nos municípios de Parauapebas, Canaã, Paragominas e Barcarena, provocam remoção da vegetação, contaminação hídrica, ameaça ao solo e exaustão de recursos naturais.

Outro impacto importante nas áreas de mineração é a falta de divesificação da economia e o crescimento populacional desordenado. Há casos, como o projeto da mina de ouro da Belo Sun, na Volta Grande do Rio Xingu, em que se denunciam riscos ambientais catastróficos.

Mobilização

As mineradoras procuram ocupar espaços na COP30 para promover a imagem de uma mineração “sustentável” e “legal” na Amazônia, destacar a importância dos minerais para a transição energética e participar de discussões políticas e econômicas do evento. 

O setor vai fazer todo o esforço possível para diferenciar mineração legal da ilegal. A mineração industrial, que opera legalmente e segue regulamentações, é bem diferente da mineração ilegal, muitas vezes associada a crimes ambientais e sociais na região amazônica.

Empresas como a Vale tentarão mostrar na conferência que é possível equilibrar a atividade de mineração com a conservação ambiental. A Vale destaca seu trabalho de preservação e restauração na Floresta Nacional de Carajás, no Pará, onde opera há décadas.

Além disso, a indústria defende a ideia de “segurança mineral” e promove a expansão da oferta de minerais estratégicos, como cobalto e lítio, essenciais para a fabricação de tecnologias de energia limpa.

O Brasil é um dos maiores produtores de minérios do mundo, o que o coloca em posição de liderança para fornecer esses recursos na transição energética.

As mineradoras costumam enviar lobistas e representantes para as conferências como a COP30, onde buscam moldar as negociações climáticas em seu favor. Empresas e associações do setor, como a Vale e o IBRAM, organizam ou patrocinam eventos e painéis de discussão antes e durante a COP30.

O fato é que está em jogo também um investimento bilionário que essas empresas não pretendem deixar escapar. Estima-se que as mineradoras vão investir US$64 bilhões até 2028 para a expansão do setor mineral no Brasil, incluindo novos projetos de minerais estratégicos.

Se os impactos desse investimento vão piorar o meio ambiente ou ajudar a melhorá-lo, só a COP dirá. O desafio é expor essas feridas abertas e buscar compromissos para a proteção e fortalecimento do meio ambiente e dos povos da floresta.

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