• 19 de dezembro de 2025

Vale envenena o Rio Cateté e ameaça a vida dos Xikrin enquanto propaga o discurso “verde”

(Reprodução / Ag. Pública)

Passado um mês da apresentação vigorosa de dados científicos pelo Ministério Público Federal (MPF) e por pesquisadores da Universidade Federal do Pará, durante a COP30, nada levou a mineradora Vale a se mexer para reverter ou ao menos amenizar a contaminação sistêmica do Rio Cateté. O problema, que afeta diretamente o povo Xikrin, é um dos casos mais graves de violação de direitos humanos e ambientais no Brasil atual. Mas um mês depois de vir à tona, para o mundo inteiro saber, nada foi feito.

A gravidade é real. Estudos demonstraram que 99,7% dos indígenas examinados, cerca de 720 pessoas, apresentam níveis excessivos de metais pesados no organismo. Pior ainda: 100% das crianças entre 1 e 10 anos estão intoxicadas. A contaminação em bebês ocorre via amamentação, pois muitos ainda não têm contato direto com o rio. Além disso, o rio Cateté já é dado como “morto” para o consumo e pesca, forçando a comunidade a depender de poços e alimentos externos, o que altera profundamente seu modo de vida tradicional.

A Vale se finge de morta, mas nem todos estão de braços cruzados. Neste ano, o MPF intensificou as ações judiciais e denúncias internacionais. Instaurou uma Ação Civil Pública para processar a Vale, a União e o Estado do Pará, alegando que a contaminação possui a “assinatura química” da mina Onça Puma.

O MPF exige que a União e o Estado garantam um programa contínuo de monitoramento de saúde e fiscalizem rigorosamente o licenciamento da mineradora. Na COP30, líderes Xikrin classificaram formalmente a situação como ecocídio e etnocídio, denunciando a negligência estatal e corporativa perante a comunidade internacional. 

A Vale nega a relação direta entre suas atividades na mina Onça Puma e a contaminação do rio, apesar dos laudos da UFPA apontarem o contrário. A mineradora tem conseguido manter operações por meio de mandados de segurança e recursos em tribunais superiores, como o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o Superior Tribunal de Justiça e até o Supremo Tribunal Federal, contestando suspensões de licenciamento anteriores.

Parceiros internacionais, como a finlandesa Outokumpu, romperam contratos de compra de níquel da Onça Puma, citando violações de direitos. Até o momento, não houve um acordo definitivo para a descontaminação do rio ou um plano de reparação integral que reverta os índices de intoxicação na população. 

Mito e realidade

Como o mitológico Sísifo, condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra montanha acima apenas para vê-la rolar de volta, o Pará assiste, ano após ano, à repetição do mesmo suplício. Promessas grandiosas de desenvolvimento sustentável desabam sobre rios mortos, florestas feridas e povos indígenas condenados. A pedra agora tem nome sofisticado, fala inglês nos painéis da COP30 e se chama “transição verde”. Mas o peso esmagador continua o mesmo — e cai, mais uma vez, sobre os corpos dos Xikrin do Rio Cateté.

Enquanto executivos e governos se revezam em discursos polidos sobre “mineração responsável” e “futuro limpo”, a realidade, exposta sem maquiagem pelo Ministério Público Federal revela um crime ambiental continuado. Um etnocídio lento. Não é metáfora. É dado científico. É laudo. É contaminação real.

Há 16 anos a Justiça reconhece o desastre. Liminares suspendem, recursos liberam, acordos se arrastam. A mina continua. A contaminação continua. O sofrimento continua. As contradições da Vale chegam a ser obscenas. A mesma empresa que se apresenta como parâmetro de sustentabilidade, que patrocina eventos climáticos e distribui relatórios coloridos sobre a chamada ESG (Ambiental, Social e Governança) para “limpar” a reputação, segue operando como se a Amazônia fosse uma zona de sacrifício. Planta árvores para fotos institucionais, mas não limpa a água que tornou letal. Produz campanhas publicitárias milionárias, mas ignora crianças com doenças neurológicas, malformações raríssimas e cânceres precoces. O greenwashing vira, aqui, uma lavagem moral de crimes ambientais gravíssimos.

Em meio a todo esse embate, até aqui favorável ao inimigo, o Rio Cateté que antes era limpo, e fundamental para a vida dos Xikrin, virou um cadáver líquido. É a pedra rolando de novo ladeira abaixo.

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