• 19 de março de 2026

Sob ameaça de nova paralisação, caminhoneiros pressionam por solução para o diesel e o Pará pode sentir impacto imediato

Reprodução/Agência Brasil

A ameaça de uma nova greve nacional de caminhoneiros, prevista para “os próximos dias”, segundo perfis das redes sociais, já acende um alerta conhecido para quem vive no Pará. Em um estado fortemente dependente do transporte rodoviário para abastecimento de alimentos, combustíveis e insumos básicos, qualquer interrupção nas estradas tende a ser sentida rapidamente, especialmente em Belém e na Região Metropolitana.

O Brasil tem cerca de 1 milhão de transportadores rodoviários de carga, sendo uma parcela relevante na Região Norte. O número de autônomos cresceu nos últimos anos, impulsionado por aplicativos de frete e informalização. Estima-se que o Pará reúna hoje cerca de 25 mil a 40 mil caminhoneiros em atividade, considerando dados do Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas, que concentra empresas e autônomos de todo o país.

A mobilização dos caminhoneiros ganhou força após sucessivos aumentos no diesel. Só em março de 2026, o combustível acumulou alta próxima de 20%, com reajuste recente nas refinarias, o que neutralizou medidas do governo para reduzir impostos. Na prática, o preço do frete não acompanhou essa escalada e muitos motoristas dizem estar “pagando para trabalhar”.

A estratégia inicial da categoria é uma paralisação gradual, com caminhoneiros deixando de aceitar cargas, o que pode afetar rapidamente o abastecimento nas cidades. No Pará, a dependência do transporte rodoviário é ainda mais sensível do que em outras regiões do país. Grande parte dos produtos que chegam a Belém, desde hortifrutigranjeiros vindos de outros estados até combustíveis distribuídos internamente, depende de longas rotas terrestres e integração com portos e balsas.

Estudos da Confederação Nacional do Transporte (CNT) apontam que o transporte rodoviário responde por mais de 60% da movimentação de cargas na Região Norte. Além disso, rotas como a BR-316, BR-010 (Belém-Brasília) e BR-163 são vitais para o abastecimento do estado.

Diante desse cenário, qualquer paralisação terá efeito quase imediato.

Em Belém, o desabastecimento de itens básicos costuma ser sentido de forma escalonada, começando pelos produtos perecíveis que vêm de fora do estado. Com base em paralisações históricas monitoradas pela Associação Paraense dos Supermercados, frutas, verduras e legumes são os primeiros a faltar, em dois ou três dias, pois são altamente perecíveis e dependem de reposição constante vinda de outros estados via rodovias como a Belém-Brasília. A falta de carne bovina e frango começa a ser notada em quatro a sete dias em açougues e supermercados, conforme os estoques locais se esgotam e os caminhões frigoríficos ficam retidos. Itens com maior prazo de validade costumam ter estoques maiores, resistindo por cerca de uma semana antes que as prateleiras fiquem visivelmente vazias, como é o caso dos enlatados.

Ainda há itens dependentes do transporte terrestre, que não são produzidos em Belém, como batata, cebola e cenoura. Locais como o Ver-o-Peso e a Feira da 25 expressam o impacto rapidamente devido à baixa capacidade de armazenamento refrigerado de longo prazo dos feirantes.

Memória viva

O temor atual não é teórico. Durante a greve dos caminhoneiros no Brasil em 2018, o Pará viveu um dos períodos mais críticos de desabastecimento da sua história recente. Postos de combustível em Belém ficaram sem gasolina e diesel. Filas quilométricas se formaram pela cidade. Aeroportos, incluindo o de Carajás, chegaram a ficar sem combustível. Supermercados tiveram as prateleiras esvaziadas em poucos dias. A paralisação, iniciada em 21 de maio de 2018, atingiu todo o país e provocou falta de alimentos, medicamentos e combustíveis.

Se a paralisação ganhar adesão nacional, os efeitos mais prováveis no Pará incluem o risco de desabastecimento em postos em poucos dias, o aumento de preços e a falta de itens perecíveis, o impacto indireto em ônibus e serviços logísticos e a lentidão no escoamento de mercadorias.

O governo federal tem mantido reuniões com lideranças da categoria e monitora o risco de greve. Ainda assim, até agora não houve consenso.

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