• 8 de fevereiro de 2026

Protagonista de crimes ambientais no Pará, Vale lidera ranking global de empresas bloqueadas por investidores

Foto: Reprodução

Enquanto se vende como empresa alinhada às boas práticas globais, a Vale acumula vetos de investidores internacionais e processos judiciais no Brasil que apontam para um mesmo padrão: a dificuldade crônica de conciliar lucro, direitos humanos e proteção ambiental, especialmente no Pará.

A Vale agora é líder global em exclusões de investidores por causa de preocupações com direitos humanos, acaba de anunciar o Financial Exclusions Tracker. A mineradora brasileira carrega um passivo que vai além das tragédias de Mariana e Brumadinho. No Pará, estado estratégico para a mineração brasileira, a empresa é protagonista de alguns dos conflitos socioambientais mais duradouros do país.

Um dos casos mais emblemáticos envolve o projeto Onça Puma, no sudeste paraense, abrangendo áreas próximas ao município de Ourilândia do Norte. Desde 2011, o empreendimento é alvo de ações do Ministério Público Federal por contaminação do rio Cateté, essencial para a sobrevivência do povo indígena Xikrin do Cateté. 

Estudos apontaram níveis elevados de metais pesados na água e em peixes consumidos pela comunidade. A Justiça chegou a determinar a suspensão das atividades da mina e o pagamento de indenizações milionárias, decisões reiteradamente contestadas pela empresa.

Outro foco de tensão está no complexo Salobo, em Marabá. Comunidades rurais e tradicionais denunciam impactos sobre cursos d’água, desapropriações forçadas e falhas nos processos de consulta prévia, livre e informada, direito assegurado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Processos judiciais questionam tanto a expansão do projeto quanto a ausência de medidas eficazes de mitigação ambiental.

No caso da mina do Sossego, em Canaã dos Carajás, a Vale responde a ações relacionadas a danos ambientais e conflitos fundiários. Moradores relatam poluição, rebaixamento de aquíferos e promessas de compensação que nunca saíram do papel. Para o MPF, os empreendimentos revelam um modelo que prioriza a escala industrial em detrimento da vida local.

Esses episódios ajudam a explicar por que 22 instituições financeiras globais se recusam hoje a investir na companhia por razões ligadas a direitos humanos. Embora a Vale afirme estar comprometida com os princípios do Pacto Global da ONU e com melhorias em sua governança desde 2019, o histórico paraense pesa contra o discurso e morde a língua do mentiroso.

Quem mais está na lista de exclusão

Além da Vale, outras grandes empresas brasileiras aparecem com destaque no Financial Exclusions Tracker, plataforma que reúne dados de 93 instituições financeiras globais sobre companhias consideradas de alto risco socioambiental ou ético.

A JBS lidera mundialmente as exclusões na categoria “práticas de negócios”, que abrange preocupações com corrupção, fraudes e evasão fiscal. Ao menos 15 instituições financeiras informam que se recusam a oferecer apoio financeiro ao frigorífico, fortemente associado aos escândalos revelados pela Operação Lava Jato. A empresa contesta o levantamento e afirma manter “sólida relação” com o mercado financeiro.

Também figuram no ranking a Petrobras e a Eneva, vetadas por investidores devido a preocupações relacionadas a direitos humanos, impacto climático e uso intensivo de combustíveis fósseis. Nenhuma das duas se manifestou até o fechamento do levantamento.

Para Merel van der Mark, da Rainforest Action Network, uma das organizações responsáveis pela plataforma, o mapeamento funciona como um alerta claro ao mercado.

“Esse mapeamento sinaliza que algumas empresas têm um impacto ambiental e social tão grave que estão sendo excluídas do mercado financeiro porque representam um grande risco para os investidores”, afirma.

Segundo o levantamento, quase metade das exclusões globais está ligada ao impacto climático, seguida por envolvimento com armamentos, tabaco e outras atividades consideradas nocivas.

No Pará, o minério extraído pela Vale e a atuação nociva da JBS alimentam cadeias globais de produção. Mas, para quem vive na rota desses empreendimentos, o custo segue alto demais. Enquanto investidores fecham a porta e processos se acumulam nos tribunais, a pergunta que ecoa na Amazônia é simples e incômoda: quem paga, de fato, o preço do desenvolvimento?

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