• 26 de março de 2026

Projeto de piso salarial reacende debate sobre rotina e renda de motoristas de ônibus em Belém

Reprodução: Liliane Moreira

A proposta em tramitação na Câmara dos Deputados que fixa em R$ 4 mil o piso nacional para motoristas de ônibus urbanos chama atenção para a realidade de Belém. Aqui, a categoria enfrenta longas jornadas, remuneração achatada e desafios diários no trânsito e na segurança.

Na capital paraense, motoristas do transporte coletivo operam, em média, jornadas próximas ao teto legal de 44 horas semanais, frequentemente estendidas por horas extras ou escalas fragmentadas ao longo do dia. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários em Empresas de Transportes Coletivos de Passageiros de Belém, o salário-base gira entre R$ 2.300 e R$ 2.800, valor que pode chegar a cerca de R$ 3.200 com benefícios e adicionais, ainda abaixo do piso proposto pelo Projeto de Lei 6533/25.

A defasagem salarial se soma a uma rotina considerada extenuante. Em Belém, mais de 2 mil motoristas são responsáveis por transportar cerca de 600 mil passageiros por dia útil, em um sistema que sofre com frota envelhecida e congestionamentos crescentes. O tempo médio ao volante pode ultrapassar 8 horas diárias, sem contar intervalos irregulares e deslocamentos até as garagens das empresas. Casos de estresse, afastamentos por problemas de saúde e desgaste físico são frequentes na categoria.

A questão da segurança também pesa. Assaltos a coletivos ainda são registrados com regularidade na região metropolitana de Belém, o que aumenta a tensão no dia a dia dos profissionais. Segundo o Sindicato dos Rodoviários de Belém, já foram registrados na região metropolitana 12 assaltos por semana, em média. Além disso, muitos motoristas acumulam a função de cobrador, prática que se intensificou nos últimos anos para reduzir custos operacionais das empresas.

Especialistas apontam que o cenário local contrasta com a justificativa do projeto em análise no Congresso, que prevê maior capacidade financeira das empresas em cidades médias e grandes. Embora Belém se enquadre nesse perfil, empresários do setor argumentam que a receita tarifária não acompanha os custos, especialmente diante da queda no número de passageiros após a pandemia.

Dados do setor indicam que houve redução de cerca de 20% na demanda em comparação ao período pré-2020, impactando diretamente o equilíbrio econômico das concessionárias. Ao mesmo tempo, os custos com combustível, manutenção e folha de pagamento seguem em alta. Para os representantes dos trabalhadores, no entanto, a criação de um piso nacional poderia ajudar a corrigir distorções históricas.

O projeto ainda precisa passar por comissões na Câmara e pelo Senado antes de virar lei, mas já mobiliza debates em capitais brasileiras. Em Belém, onde o transporte coletivo segue como principal meio de locomoção para grande parte da população, a discussão vai além dos números: envolve qualidade do serviço, condições de trabalho e o futuro de um sistema que depende, diariamente, de quem está ao volante.

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