• 25 de fevereiro de 2026

Na gambiarra da sobrevivência, Belém convive com tragédias ligadas a ‘gatos’ de energia e prejuízos bilionários no setor elétrico

Reprodução

A busca por um direito básico, o acesso à energia elétrica, terminou em tragédia na manhã desta terça-feira no bairro de Águas Lindas. Vailson Rodrigues Farias, 35, tentava realizar uma conexão clandestina, o chamado “gato”, na rede de alta tensão. Este episódio joga luz incômoda sobre uma realidade invisível. Há em Belém milhares de famílias em situação de vulnerabilidade que, sem condições de arcar com as tarifas atuais, que são as mais caras do Brasil, acabam encurraladas entre o apagão social e o risco iminente de morte.

Subir em um poste à mercê dos fios elétricos virou cena cotidiana na Grande Belém. Vailson foi encontrado morto após receber uma descarga em um fio de alta tensão enquanto mexia na rede na rua Cabanagem, a poucos metros da escola Bolonha, segundo boletim de ocorrência registrado pela polícia. Equipes de resgate confirmaram o óbito no local.

Duplo prejuízo 

O episódio trágico não é isolado: ele se inscreve em uma sequência de acidentes relacionados a ligações clandestinas de energia que transformam a rede elétrica urbana em armadilha letal.

Esse tipo de desvio representa um desgaste profundo no sistema elétrico brasileiro e um custo que pesa no bolso do consumidor. Em 2024, as perdas não técnicas, que incluem furtos, fraudes e ligações clandestinas, somaram R$ 10,3 bilhões em prejuízo ao setor elétrico, segundo relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica, divulgado em junho.

Esse montante astronômico significa bilhões de reais de energia que deixa de ser faturada e passa a ser embutida nas contas dos consumidores regulares ou simplesmente extraviada no emaranhado de fios improvisados. Especialistas calculam que as perdas não técnicas corresponderam a cerca de 16,02% do mercado de baixa tensão em 2024, faixa em que se encaixam as residências e pequenos comércios onde “gatos” são mais comuns.

O peso desse problema é sentido também no bolso do consumidor. Projeções feitas pelos administradores do sistema elétrico indicaram que fraudes e furtos podem encarecer a conta de luz de famílias em até 13,4%, ao repassar aos consumidores regulares o custo das perdas.

Preços altos

No contexto de Belém e região metropolitana, onde bairros como Águas Lindas sofrem com precariedade de infraestrutura e alta incidência de ligações irregulares, esses desvios não só ampliam o risco de acidentes como comprometem a qualidade do fornecimento. Fios desencapados e emendas improvisadas sobrecarregam a rede e expõem moradores e trabalhadores a descargas fatais.

O desvio de energia é tipificado como crime, mas a efetividade da repressão é limitada diante da escala do problema e das causas sociais que o alimentam. E não se pode desligar a consciência para esse fato. Essas causas vão da dificuldade de acesso à tarifa regular, excessivamente cara para o segundo estado que mais produz energia elétrica no Brasil, até falhas de fiscalização e acompanhamento técnico precário.

Enquanto isso, os postes de rua continuam a representar um confronto silencioso entre a precariedade e a necessidade. O problema é que nem sempre há quem desça sem pagar o preço mais alto. Como Vailson pagou.

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