- 1 de abril de 2026
Na encruzilhada da bioeconomia, Pará precisa preservar a floresta, impulsionar produção e superar obstáculos
Em um estado onde a diversidade de plantas e animais se confunde com rios e florestas que cortam a paisagem, o Pará tenta consolidar um modelo de desenvolvimento no qual biodiversidade e economia não sejam antagônicos. Além de acompanhar a estratégia federal recém-lançada para “destravar a bioeconomia”, o governo estadual busca protagonismo com políticas próprias que tentam transformar riquezas naturais em valor econômico sem abrir mão da conservação.
Bioeconomia é, em termos simples, um modelo produtivo que utiliza recursos (tais como plantas, frutos, óleos, fibras e conhecimento tradicional) de forma sustentável, para gerar produtos, serviços e renda, ao mesmo tempo em que preserva ecossistemas a longo prazo. No Pará, isso virou política de Estado com o Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio) lançado em 2023 e já referência nacional.
Segundo levantamento da Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia, as cadeias produtivas ligadas à sociobiodiversidade movimentam cerca de R$ 13,5 bilhões por ano, com destaque para açaí, castanha-do-Pará, cacau e óleos vegetais. Mais de 400 mil famílias foram beneficiadas diretamente por ações do PlanBio, que mobilizou cerca de R$ 1 bilhão em investimentos e apoio técnico.
Parte da estratégia é fortalecer a conexão entre ciência, tecnologia e saberes tradicionais. O estado inaugurou o Amazon Bioeconomy and Innovation Park, em Belém, apontado como maior hub tecnológico do mundo focado em produtos da floresta. O espaço reúne startups, laboratórios e centros de pesquisa, buscando transformar matérias-primas em produtos de valor agregado com acesso a mercados nacionais e internacionais.
Parcerias com o Banco do Brasil e outras instituições criaram linhas de crédito para indígenas, quilombolas, agricultores familiares e ribeirinhos, aproximando o sistema financeiro formal de iniciativas que antes careciam de capital e assistência técnica. Em 2025, o governo firmou acordo com a Conservation International para acelerar projetos de restauração de paisagens e fortalecer a bioeconomia baseada em nature-based solutions, que podem mitigar mudanças climáticas e gerar oportunidades econômicas.
Para especialistas, o diferencial do modelo paraense está em colocar as pessoas no centro das decisões. “O plano de bioeconomia do Pará não é apenas sobre produtos da floresta, é sobre transformar a floresta em futuro para quem aqui nasceu e depende dela”, afirma Raul Protázio Romão, secretário estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade.
Apesar dos avanços, persistem desafios. Estruturar mercados internacionais para produtos da bioeconomia exige certificação, logística e integração em cadeias de valor complexas. A assistência técnica para pequenas comunidades ainda é insuficiente, e o financiamento de longo prazo permanece limitado.
O protagonismo do Pará começa a gerar resultados, mas a jornada para equilibrar floresta, produção e mercado mostra que transformar a biodiversidade em prosperidade sustentável é uma corrida com obstáculos. E o sucesso depende de políticas consistentes, tecnologia e engajamento das comunidades.