- 6 de abril de 2026
Morte de operário por descarga elétrica na Alunorte expõe falhas recorrentes de segurança e reforça histórico de acidentes da Hydro no Pará
A morte de um trabalhador terceirizado na refinaria Hydro Alunorte, em Barcarena (PA), faz disparar um alerta recorrente sobre as condições de segurança em grandes plantas industriais na Amazônia. O episódio mais recente, ocorrido neste final de março, não é um fato isolado, mas parte de um histórico que combina terceirização desprotegida com riscos elevados e falhas sob investigação.
O funcionário, identificado como Romário Moia e Moia, de acordo com matéria do Portal da Mineração, era prestador de serviço da DTA Engenharia. Ele morreu após sofrer uma descarga elétrica enquanto realizava manutenção em um gerador dentro da unidade industrial da Hydro. Ele chegou a ser socorrido por equipes internas e encaminhado a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Barcarena, mas não resistiu.
Segundo informações iniciais, o acidente ocorreu durante um procedimento de rotina, o que, para especialistas em segurança do trabalho, agrava o quadro, já que atividades previsíveis são justamente aquelas em que os protocolos deveriam estar mais consolidados. A Polícia Civil registrou o caso como morte acidental e solicitou perícias para apurar as circunstâncias.
Em nota, a Hydro afirmou que as causas ainda estão sendo investigadas e lamentou o ocorrido. Já a Confederação Nacional do Ramo Químico da CUT (CNQ/CUT) classificou o episódio como “eletroplessão”, morte por descarga elétrica, frequentemente associada a falhas em isolamento de energia ou procedimentos de segurança.
O fato de a vítima ser terceirizada não é um detalhe. Em setores industriais de alto risco, como mineração e refino, trabalhadores contratados por empresas prestadoras costumam estar mais expostos a acidentes — seja por rotatividade, treinamento insuficiente ou pressão por produtividade.
No caso de Barcarena, a Hydro opera a Alunorte, uma das maiores refinarias de alumina do mundo. O complexo concentra operações críticas, com equipamentos de alta tensão e processos contínuos. Nesses ambientes, falhas pequenas podem ser fatais.
Relatos de entidades sindicais, segundo a CNQ, indicam que a morte de Romário não surpreendeu quem acompanha o cotidiano da planta. Em manifestações públicas, representantes dos trabalhadores apontam que acidentes envolvendo eletricidade geralmente estão ligados a lacunas em bloqueio de energia (lockout/tagout), uso inadequado de equipamentos de proteção ou falhas na supervisão, elementos que dependem diretamente da gestão da segurança.
Histórico pesa
A Hydro não enfrenta apenas questionamentos pontuais. Nos últimos anos, a empresa esteve no centro de uma série de episódios que expuseram fragilidades em sua operação no Pará. O mais emblemático ocorreu em 2018, quando fortes chuvas levaram ao transbordamento de bacias de rejeitos da Alunorte, em um episódio que ficou conhecido como o caso da contaminação em Barcarena. Investigações apontaram níveis elevados de metais em rios da região e a existência de estruturas de drenagem não autorizadas, o que resultou em ações judiciais, redução compulsória da produção e disputas com comunidades locais.
Embora esse caso seja de natureza ambiental, ele ajuda a compor um padrão: operações sob questionamento, respostas corporativas contestadas e impactos diretos sobre trabalhadores e populações vizinhas.
Mais recentemente, registros de acidentes de trabalho, ainda que nem sempre fatais, continuam a surgir em veículos especializados e na imprensa local. O episódio atual, envolvendo descarga elétrica em equipamento industrial, se soma a esse histórico como mais um indicativo de que o controle de riscos segue sendo um desafio.
A apuração oficial ainda está em curso, mas há uma questão central que transcende o laudo técnico. Quem responde pela segurança dentro de um complexo industrial altamente terceirizado? Empresas contratantes costumam afirmar que exigem o cumprimento de normas rigorosas por parte de prestadoras. Na prática, porém, a fragmentação das responsabilidades pode diluir o controle efetivo, especialmente em tarefas críticas, como manutenção elétrica.
Especialistas em segurança defendem que, nesses casos, a responsabilidade deve ser solidária. Isso significa que a empresa principal precisa garantir não apenas normas no papel, mas fiscalização ativa, treinamento contínuo e cultura de segurança integrada entre próprios e terceiros.
O custo da rotina
A morte de Romário Moia expõe um paradoxo frequente em grandes operações industriais. Quanto mais rotineira a tarefa, maior o risco de negligência operacional. É na repetição que os procedimentos deixam de ser checados com rigor, até que um belo dia falham.
Em Barcarena, a tragédia interrompeu a vida de um trabalhador de 32 anos em pleno exercício de sua função. Para além da estatística, o caso reforça uma constatação incômoda: acidentes desse tipo raramente são imprevisíveis. Aliás, na maioria das vezes são evitáveis. E é justamente por isso que se repetem.