- 19 de dezembro de 2025
Maré de recursos injeta 2,5 bi em dezembro com 13º e Bolsa Família, mas Belém permanece refém da desigualdade
O pagamento final do 13º salário, até o dia 20, e a antecipação da parcela de dezembro do Bolsa Família, já sacramentada, devem injetar na economia de Belém mais de R$2,5 bilhões de reais. De acordo com o DIEESE/PA, o 13º salário será responsável por, aproximadamente, R$2,4 bilhões. Vão para o bolso de trabalhadores do setor formal público e privado, aposentados e pensionistas que residem na capital.
Está concentrada em Belém a maior parte da massa salarial do estado, respondendo por cerca de 30% do total de recursos do 13º injetados em todo o Pará.
Já com base nos dados do Bolsa Família, coletados pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e de acordo com informações do sistema Vis Data, aproximadamente 175 mil famílias recebem o benefício na capital, o que significa um repasse de mais de R$120 milhões em dezembro.
Mesmo com tanto dinheiro circulando, a capital paraense não escapa do paradoxo que atormenta a rotina de muitas famílias. A injeção de R$ 2,5 bilhões provenientes do 13º salário e do Bolsa Família funciona como uma poderosa maré de recursos, mas sua distribuição revela as profundas fissuras sociais e econômicas da cidade.
Enquanto a economia formal celebra a liquidez natalina, uma vasta Belém submersa, que vive na informalidade e na miséria, absorve uma parte desse fluxo em um ciclo de subsistência que acende um alerta sobre o futuro.
O 13º salário é um direito trabalhista que beneficia servidores públicos e trabalhadores formais, garantindo planejamento e consumo direcionado. Esse dinheiro, majoritariamente, irriga o comércio estabelecido, os serviços com CNPJ e os setores que operam sob o farol da lei.
Em paralelo, aproximadamente R$120 milhões chegam através do Bolsa Família, um programa vital de transferência de renda que ampara cerca de 175 mil famílias em Belém. Para essa população, o recurso representa a garantia de necessidades básicas, como alimentação e moradia, e é imediatamente pulverizado na economia local, sustentando pequenos comércios e o mercado consumidor da periferia.
O Pará possui uma das maiores taxas de informalidade do Brasil, com quase 60% dos trabalhadores vivendo sem carteira assinada. Em Belém, essa realidade é ainda mais latente, com uma presença massiva de ambulantes e trabalhadores autônomos. Quando os bilhões do 13º e do Bolsa Família entram em cena, o contraste fica evidente.
A economia formal é um porto seguro. Recebe o maior volume financeiro, capitalizando em cima de uma base de consumo mais estável e com acesso a crédito. Aumentam as vendas de eletrodomésticos, roupas de marca e serviços de lazer. E o poder público também ganha, com o crivo dos impostos.
Já a economia informal é como um mar aberto. Depende do efeito cascata e leva o dinheiro do Bolsa Família e dos assalariados de baixa renda para feiras e comércios de rua, sendo consumido de forma imediata e pulverizada. É um ciclo de sobrevivência, não de acumulação de riqueza.
A cidade reflete essa disparidade em sua geografia. Belém é marcada por uma alta incidência de pobreza, com mais de 55% dos domicílios localizados em áreas de favelas. Enquanto áreas nobres recebem investimentos em saneamento e infraestrutura, como se viu recentemente na COP30, comunidades carentes continuam à margem, sem acesso a serviços básicos.
Os bilhões que circulam em dezembro são a prova de que há dinheiro na cidade, mas a forma como ele “navega” expõe uma verdade incômoda: a riqueza flui por canais oficiais e estruturados, enquanto a subsistência corre pelos rios invisíveis da informalidade. A cada final de ano, a cidade se ilumina com o consumo, mas a sombra da miséria permanece.
Os recursos temporários trazem alívio efêmero, mas não a redenção estrutural. Belém, com seu brilho de dezembro, permanece uma cidade onde a tábua de salvação de uns é a realidade perene de exclusão de muitos outros. Um ciclo que se fecha e recomeça a cada virada de calendário. Sem nunca quebrar o espelho da desigualdade.