• 21 de janeiro de 2026

Formiga, a incansável operária do esporte, abre novos caminhos para o futebol feminino 

Reprodução: Sam Robles/CBF

Há jogadoras que passam. E há aquelas que ficam, mesmo quando o apito final insiste em soar. Formiga pertence a essa segunda espécie: rara, resistente, quase eterna, daquelas que carregam o futebol acima de seu próprio peso. No futebol feminino brasileiro, sua história não se dá em linha reta. É uma trilha aberta a golpes de chuteira, suor e teimosia, como quem aprende a sobreviver jogando.

Nascida Miraildes Maciel Mota, em Salvador, Formiga começou cedo, num tempo em que menina com bola no pé era mais estranhamento do que promessa. Jogou escondida, jogou desacreditada, jogou porque não sabia viver de outro jeito. Quando chegou à Seleção Brasileira, ainda jovem, não chegou para cumprir tabela: chegou para ficar. E ficou. Por décadas. Copas do Mundo, Jogos Olímpicos, ciclos e mais ciclos vestindo a mesma camisa amarela, enquanto o mundo mudava ao redor.

Formiga atravessou gerações como ponte viva. Jogou com as pioneiras e com as meninas que cresceram tendo seu nome como referência. Nunca foi a mais midiática, mas quase sempre foi a mais necessária. Volante de combate, era o tipo de jogadora que fazia o time respirar melhor. Roubava bolas, organizava o caos e seguia em frente sem alarde. Seu futebol tinha mais verbo do que adjetivo.

Ao longo da carreira, criou laços por onde passou. Entre eles, uma relação de respeito e carinho com atletas paraenses, com quem dividiu vestiários, batalhas e histórias. Em um futebol que sempre lutou contra a invisibilidade, essas conexões foram abrigo e força. Formiga sempre entendeu o futebol como território compartilhado, onde ninguém chega sozinha.

O pior momento talvez não tenha sido uma derrota específica, mas o desgaste silencioso de lutar por estrutura, calendário, respeito e salário digno. O melhor? Paradoxalmente, foi a longevidade. Seguir em alto nível quando já esperavam sua saída foi um ato político. Jogar até onde o corpo permitiu, e um pouco além, foi sua forma de resposta.

Hoje, longe das quatro linhas, Formiga não abandonou o jogo. Assumiu nova missão como dirigente dedicada à formação, à gestão e à construção de caminhos mais justos para quem vem depois. Trocou a braçadeira invisível de capitã por outra, igualmente pesada: a de quem decide, organiza e protege.

Formiga não corre mais atrás da bola. Agora, ela é Diretora de Políticas de Futebol e Promoção do Futebol Feminino do Ministério do Esporte. “Te manca, moleca!”, exclamariam os paraenses, nativos ou não, como ela, uma baiana que deu largos passos por aqui. 

A mulher não corre mais atrás da bola. Corre atrás do tempo. Para que ele seja melhor. E talvez esta seja sua maior vitória: continuar fazendo o futebol feminino avançar, mesmo quando exista quem ameace pará-lo.

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