• 12 de janeiro de 2026

Fantástico expõe esquema de extorsão em Belém com delegado e promotor no centro das denúncias

(Reprodução / TV Globo)

Um atropelamento registrado por câmeras de segurança em uma ciclofaixa de Belém acabou levando a Polícia e o Ministério Público do Pará (MPPA) a um enredo bem mais grave. Uma investigação, revelada ao público pelo programa Fantástico, da TV Globo, aponta o delegado da Polícia Civil Arthur Afonso Nobre de Araújo Sobrinho como um dos principais nomes de um esquema de extorsão funcionado dentro do sistema de justiça do Pará desde 2021. Segundo o MPPA, o delegado usava a função para cobrar dinheiro de investigados em troca de “facilidades” em inquéritos policiais.

Logo atrás na hierarquia do esquema aparece o promotor de Justiça Luiz Márcio Teixeira Cypriano, da 2ª Promotoria de Controle Externo da Atividade Policial. De acordo com a apuração, ele teria atuado para dar aparência de legalidade a procedimentos usados como base para a cobrança de propina. Conversas e áudios reunidos pela investigação indicam que havia combinação prévia sobre alvos, valores e até a forma de entrega do dinheiro. O promotor se dizia “padrinho” do delegado.

Em janeiro de 2024, o delegado avisou por mensagem: “vou levar mais 3 hoje pro senhor. Valor que, segundo a apuração do Fantástico, seria R$ 3 mil em dinheiro vivo entregues a Luiz Márcio Cypriano, que agradece a quantia e ainda pede “Multiplica, Senhor”.

A investigação do MPPA começou após o atropelamento de um homem que se exercitava em uma ciclofaixa de Belém. O caso ganhou repercussão depois que uma parente do motorista reconheceu, pela televisão, o delegado responsável pelo inquérito e relatou que ele estaria cobrando um valor muito alto para “aliviar” a situação do condutor. Segundo o Ministério Público, o episódio expôs o funcionamento do esquema: o delegado enviou o vídeo do acidente ao promotor Luiz Márcio, que pediu oficialmente a abertura do inquérito, mesmo fora da área de atuação do policial, permitindo que o caso fosse assumido por Arthur Nobre, que teria exigido R$ 25 mil para beneficiar o motorista no inquérito.

Em áudio após a parente do motorista reclamar do alto valor, o delegado Arthur afirma: “Quem paga mal paga duas vezes”. Em outro, continua: “Nunca pense que vou me queimar por R$ 10, R$ 20, R$ 30 mil, tá bom? Não pense isso”.

O MPPA afirma que Arthur Nobre também mantinha diálogo frequente com o então diretor metropolitano da Polícia Civil, Carlos Daniel Fernandes de Castro. Em mensagens trocadas entre eles, há comentários que sugerem interesse financeiro em operações policiais, e que ambos se beneficiavam dos esquemas de extorsão. Em uma delas, o diretor relembra quando o delegado atuou na Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc) por pouco tempo, e escreve: “Imagina se tivesse ficado muito tempo”. Em resposta, o delegado diz, em áudio, que se tivesse permanecido em determinada unidade “a gente teria apreendido droga” e que os dois estariam “ricos”.

Ainda segundo a investigação, a transferência de Arthur Nobre para outra delegacia, em agosto de 2023, foi tratada internamente como uma chance de arrecadar ainda mais dinheiro. Um escrivão, parte do esquema, chega a afirmar, em áudio, que o novo local era “o lugar certo pra gente”, onde daria para “ficar bem, sem bronca”. Em outra mensagem, o diretor ironiza: “Cansado, mas a fim de roubar alguém, né?”.

A apuração também alcança o Judiciário. O juiz Jackson José Sodré Ferraz, do Tribunal de Justiça do Pará, é investigado por suposta participação em decisões que beneficiariam o grupo. Um dos casos citados é a famosa operação “Truque de Mestre”, de 2023, que teve como alvo influenciadores digitais suspeitos de promover jogos de azar. As buscas e prisões temporárias foram autorizadas durante um plantão judicial, a pedido do delegado Arthur Nobre e com parecer favorável do promotor Luiz Márcio.

Uma das presas na operação, a influenciadora Noelle Araújo, afirmou em entrevista que pagou R$ 500 mil ao seu advogado na época, sem saber como ele atuaria em benefício dela. Na verdade, a investigação aponta que o dinheiro foi utilizado como propina para que a influenciadora e a mãe não fossem presas.

O Ministério Público segue apurando o caso, que levanta suspeitas graves sobre a existência de uma “justiça paralela” dentro das instituições responsáveis por investigar, acusar e julgar crimes no Pará. O delegado Arthur Nobre é réu e responde o processo em liberdade. Ele e o promotor Luiz Márcio Cypriano estão afastados dos seus respectivos cargos, mas continuam recebendo seus salários normalmente.

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