• 27 de outubro de 2025

Do início modesto às mega estruturas atuais, festas de aparelhagem crescem e alavancam as carreiras de artistas do Pará

Reprodução

São 3h de uma madrugada abafada, e uma moça de 30 anos contraria o namorado ao avisar que só arredará o pé do Point Show, casa noturna em Belém (PA), após assistir à explosão de papel picado na festa da aparelhagem Tudão Crocodilo. Até que amanheça, uma pequena turba agitará freneticamente os corpos em meio à mistura de música e pirotecnia orquestrada por um DJ no alto de uma estrutura metálica em formato de crocodilo.

Sinestesia é um conceito de fácil entendimento nos bailes que há pelo menos sete décadas fazem pulsar as bases da indústria musical paraense. Ali, o som é feito para ver, sentir e também ouvir, em frequências “capazes de reorganizar sistemas moleculares”, como atesta a primeira faixa de “Rock doido”, álbum recém-lançado por Gaby Amarantos em celebração a este ecossistema cultural sem qualquer comparativo no mundo.

Exaltação ao brega

A rigor, as aparelhagens — como são chamados os potentes sistemas de som made in Pará — surgiram de maneira despretensiosa, entre as décadas de 1940 e 1950, em comunidades ribeirinhas. O negócio, à época, era mais ou menos simples: aos fins de semana, grupos de amigos e familiares armavam equipamentos sonoros, inicialmente conectados a toca-discos, para dançar, juntinhos, clássicos do brega. Embora popular, o gênero era desprezado pelas rádios locais, que só reproduziam standards estrangeiros na programação.

— Algumas estações FM mantiveram, por muito tempo, decretos proibindo o brega. Não à toa, as aparelhagens estão diretamente associadas a este gênero, que sempre foi o som da periferia — diz o DJ e produtor Waldo Squash, líder do grupo Gang do Eletro. — As festas cresceram justamente fazendo a divulgação de cantores do brega.

Do mesmo modo que a produção musical se transmutou, a partir dos anos 2000, com a popularização de ferramentas digitais — algo que deu tração a vertentes do brega fincadas em bases eletrônicas, entre os quais o tecnobrega, o tecnomelody, o rock doido e o eletromelody —, as aparelhagens também passaram a viver em permanente renovação na esteira da constante modernização das tecnologias.

Hoje, para montar do zero uma aparelhagem nos trinques, é preciso desembolsar mais de R$ 3 milhões, como apontam produtores paraenses ouvidos pelo GLOBO. Além das caixas turbinadas para ecoar diferentes frequências, a maquinaria inclui telões de LED, holofotes, estruturas de alumínio e geradores de energia capazes de suportar voltagens que não cabem nas tomadas. E mais. Ainda há as carretas onde tudo isso fica guardado.

— Antigamente, as aparelhagens eram feitas com 12 metros de compensados e equipamentos inclinados uns nos outros. Hoje em dia, é um comando com uma estrutura gigantesca, algo parecido com o que se vê em grandes shows — aponta o DJ Elison, que trabalha nessa seara desde a infância, ao lado dos pais e dos irmãos, criadores da conhecida aparelhagem Super Pop.

Celebridades locais, os DJs são verdadeiros performers. Antes chamados de “controlistas”, eles passaram a também assumir, do fim dos anos 1980 para cá, a função de locutores. No meio das festas, tomam o microfone para enfileirar bordões próprios e direcionar mensagens — e até mesmo músicas — para grupos de fãs, as equipes. O resultado, claro, é a euforia imediata.

— O trabalho do DJ, nas aparelhagens, envolve a receptividade com o público. Nas festas, os brincantes adoram ouvir seus nomes sendo citados para todo mundo — comenta o DJ Dinho, da aparelhagem Tupinambá. — Muito além de apertar botões, como se dizia dos controlistas, os DJs deixaram de ser simplesmente DJs. Nas aparelhagens, são comunicadores, locutores e apresentadores, além de sonoplastas.

Palco para lançamentos

A comunicação direta com o povo faz dessas festas o principal mecanismo de difusão de lançamentos musicais no Pará. Mesmo após as rádios locais terem incorporado o brega em suas programações, as aparelhagens seguem como propulsor fundamental para a carreira de artistas no estado.

Há não muito tempo, a depender da tecnologia de cada época, os cantores entregavam aos DJs vinis, fitas cassetes, CDs, disquetes, pendrives e arquivos digitais alocados no extinto site 4 Shared (“quatro xaréde”, no linguajar amazônico) com produções próprias para serem tocadas nas festas. Tudo sempre funcionou na base da camaradagem, por meio “do bom e velho entendimento de que uma mão lava a outra”, como resume um profissional da área. A realidade segue exatamente igual — a única diferença é que as músicas, atualmente, são enviadas com cliques no WhatsApp.

— Se não fossem as aparelhagens, eu não seria hoje a Viviane Batidão — comenta a cantora, tida como a maior diva do tecnomelody.

Ela calcula, aliás, que ao menos mil músicas com a sua voz estejam perdidas em pendrives distribuídos a DJs ao longo dos últimos anos.

— Surgi com a força dessas festas, e as aparelhagens ainda são a maior ferramenta de distribuição de minha produção, além de meu principal termômetro. Ainda vou, de DJ em DJ, mandando minhas canções — reforça Viviane. — Eles são nossos braços direitos, e é assim que a gente caminha junto rumo ao sucesso.

A cantora define as aparelhagens como “montanhas-russas do brega”, já que todas — entre as quais Rubi, Fênix do Marajó, Badalasom, Cyclone e Meteoro, várias delas retratadas numa marcante série fotográfica de Vincent Rosenblatt — dão vazão aos vários estilos do gênero (“Do rock doido ao brega raiz para dançar coladinho”, como ela diz).

Figura que também despontou nas festas de aparelhagem, Gaby Amarantos crê que este fenômeno cultural do Pará vive agora um “momento de virada”, com um gradual alcance nacional. A intenção de “Rock doido”, disco com o qual ela sairá, em breve, em turnê pelo país, é emular um set completo de uma… aparelhagem.

— Quando preparei a sonoridade do álbum, quis trazer ao máximo a experiência de uma festa de aparelhagem para as pessoas sentirem esta vibração cheia de muita pirotecnia, fumaça, euforia, gozo e alegria — anima-se. — Somos um Brasil tecnológico no meio da Amazônia.

Fonte: O Globo

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