- 16 de março de 2026
Despejo expõe drama humano e abandono em Parauapebas. Mais de 850 famílias amanhecem sem teto e fecham rodovia.
O dia ainda nem tinha clareado completamente quando o barulho das viaturas, o aparato das ordens judiciais e o choro de crianças romperam a rotina do loteamento Castanheira, no complexo VS-10, em Parauapebas. Em poucas horas, o que era lugar de moradia para cerca de 850 famílias virou cenário de desespero. Móveis espalhados pela estrada de terra, colchões jogados ao relento, mães tentando juntar documentos e roupas enquanto crianças perguntavam, sem resposta, para onde iam.
Pais e mães que haviam saído cedo para trabalhar descobriram que não poderiam voltar para casa. Crianças que foram para a escola simplesmente deixaram de ter um lar para retornar. A reintegração de posse da área da Fazenda Paloma, conhecida como Castanheira, transformou a manhã desta segunda-feira (16) em um dos episódios mais dramáticos recentes da crise habitacional do município.
Revoltados com a situação, moradores bloquearam um trecho da PA-160, uma das principais ligações entre Parauapebas e Canaã dos Carajás. Pedaços de madeira e pneus foram colocados na pista para impedir a passagem de veículos, provocando um enorme engarrafamento.
O motorista de carreta Paulo Henrique disse ter ficado mais de três horas parado desde o início do bloqueio. “A gente entende o desespero deles. Está tudo travado aqui, mas dá para ver que o pessoal está sem saída”, afirmou. Entre os manifestantes, o sentimento predominante era de abandono.
“Milhares de famílias estão aqui reivindicando o direito de moradia, o direito de ter um pedacinho de chão para fazer sua casinha e botar seus filhos embaixo. Estamos aqui porque nenhum órgão público veio ouvir nossa voz, saber nossos motivos, conhecer nossas dificuldades e oferecer apoio. Nós somos pais de família, mães solteiras, trabalhadores, crianças e idosos”, disse Maurício Martins, morador da área.
Outra liderança da ocupação, Edilane Novaes, conhecida como Lora do Ipiranga, afirmou que a área estava abandonada há décadas:
“A gente está aqui há dois anos, mas há mais de 20 anos a área está sem nenhuma produtividade, só matagal, sem uso social. O empresário Dácio Moreira se diz proprietário. Estamos totalmente desamparados. O abrigo para onde nos encaminharam é subumano, não tem estrutura nenhuma. Eles não fornecem alimentação e ninguém pode nem cozinhar. O abrigo deveria comportar os bens das famílias e os filhos, mas o quartinho não tem sequer tomada, não cabe uma cama”, disse, que dirá um fogão”, lamentou.
Segundo relatos de moradores, as famílias foram levadas para um galpão improvisado, onde foram montados pequenos cubículos de cerca de três metros quadrados feitos de madeirite. No local não há energia elétrica, água encanada, banheiros adequados ou espaço para preparo de alimentos.
A situação evidencia o que moradores e apoiadores classificam como ausência do poder público municipal. Durante os 15 meses da atual gestão, técnicos da Secretaria de Habitação teriam estado no local apenas uma vez, em dezembro do ano passado e ainda assim sem visitar metade das famílias. Outras secretarias, como Educação, Saúde e Assistência Social, segundo os moradores, nunca teriam ido à área.
O impacto social é imediato. Cerca de 500 crianças ficaram sem garantia de continuidade no ano letivo, já que suas famílias agora não têm endereço fixo. Idosos, doentes e pessoas acamadas também ficaram sem abrigo adequado. Apenas 99 das mais de 850 famílias foram consideradas aptas a receber aluguel social.
Para o deputado federal Keniston Braga (MDB-PA), que acompamnha o drama, o episódio reflete a falta de planejamento e de ação do poder público local.
“O que estamos vendo hoje na VS-10 é o resultado desumano que a falta de ação e de compromisso com a população provoca”, afirmou. “Não estou defendendo invasões, pois a propriedade privada deve ser preservada por princípio. Mas defendo a dignidade das pessoas acima de tudo. E a dignidade dessas famílias não foi preservada em momento algum. Onde estava a prefeitura de Parauapebas? Que tipo de amparo essas famílias receberam nessa hora?”
Segundo o parlamentar, as famílias o procuraram em busca de ajuda. Ele afirma ter iniciado articulações em Brasília para tentar uma solução habitacional mais ampla. De acordo com Braga, já houve contato com o ministro das Cidades, Jader Filho, para acelerar projetos habitacionais no município. A proposta, segundo ele, é viabilizar a assinatura de uma ordem de serviço para a construção de centenas de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida em Parauapebas. “É assim que mostramos trabalho: com soluções concretas para problemas urgentes, não com a omissão que se vê na prefeitura de hoje”, disse.
Procurada, a Prefeitura de Parauapebas afirmou que a reintegração de posse ocorre em cumprimento a uma determinação judicial referente a uma área privada. Segundo a administração municipal, equipes das secretarias de Habitação e de Assistência Social estiveram no local para realizar levantamento socioeconômico das famílias e identificar moradores em situação de vulnerabilidade. A prefeitura informou ainda que os casos analisados estão sendo encaminhados para programas municipais de assistência social e habitacional.
Enquanto o impasse continua entre decisões judiciais, promessas políticas e justificativas administrativas, a realidade no chão da VS-10 permanece marcada pela incerteza.
À beira da estrada, sob o sol e a poeira, famílias tentam proteger o pouco que restou de suas vidas dentro de sacolas, carrinhos improvisados e pedaços de madeira. Para centenas de pessoas que perderam tudo em poucas horas, o despejo já aconteceu, e o futuro, por enquanto, ainda não tem endereço.