• 9 de fevereiro de 2026

Desmaios, correria e centro de São Paulo ‘fechado’: os detalhes do encontro entre megablocos que levou caos à capital

Reprodução: Redes sociais

Ao som de “I feel so close to you right now” (“Eu me sinto tão perto de você agora”, em tradução livre), do DJ Calvin Harris, milhares de pessoas foram empurradas, prensadas e arrastadas ontem, em São Paulo, na passagem do bloco pela Rua da Consolação. A concentração de dois megaeventos — o do músico escocês, trazido por uma marca de cerveja, e o tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta, que levou o cantor Péricles às ruas — transformou os dois quilômetros da via em um gargalo. Foliões derrubaram grades, passaram mal e, em alguns trechos, sofreram com a truculência policial.

Em sua estreia no carnaval de rua de São Paulo, Calvin Harris atraiu uma multidão de fãs após 11 anos sem se apresentar no país. Já às 11h, horas antes do início do show, que começou às 15h, era possível ver foliões tentando se aproximar do trio elétrico. Mesmo antes de o DJ subir ao palco, surgiram reclamações sobre a organização e a decisão de concentrar dois megablocos no mesmo trecho da via, ainda que em horários diferentes.

Com o calor intenso e a superlotação, dezenas precisaram de atendimento médico. A prefeitura chegou a reservar um trecho da Consolação para a circulação de viaturas e o socorro aos foliões, mas, com o alto número de pessoas, a contenção passou a gerar tensão.

Alguns participantes alegavam mal-estar para acessar a área restrita, enquanto outros aguardavam distrações dos agentes de segurança para pular as grades. Em determinados pontos, grupos se organizaram para derrubar as estruturas de contenção. Um quartel do Corpo de Bombeiros chegou a ser invadido durante as movimentações.

A situação se agravou a ponto de agentes da Polícia Militar passarem a usar cassetetes para tentar conter a multidão. Na altura do Cemitério da Consolação, o secretário de Subprefeituras, Fabrício Cobra, tentou intermediar discussões e ouviu críticas tanto de foliões quanto de policiais.

Fã do DJ, Jefferson Almeida, profissional da área de comércio exterior, afirmou que o artista deveria ter um evento exclusivo, sem dividir área com outros blocos:

— Ele é o DJ mais caro do mundo e não vinha ao Brasil há muito tempo. Acho ótimo ter uma apresentação gratuita, mas deveria ser algo próprio, sem disputar espaço com outros artistas. Ainda mais com essa mistura de públicos, o publico dele sendo mais homossexual e os outros artistas com um público mais hetéro.

Calvin Harris se apresentou ao lado de Nattan, Xand Avião, Zé Vaqueiro e Felipe Amorim. Seu bloco antecedeu a apresentação de Perícles, KL Jay, Simoninha e a Banda do Baixo Augusta, com Tássia Reis, Tulipa Ruiz, André Frateschi, Dani Vie, Rom Santana, Fabiana Bombom e outros.

Para a analista comercial Rafaela Santos, que também foi à Consolação para ver o escocês, a superlotação era previsível, e ainda assim assustadora:

— Por ser um artista internacional, eu já esperava muita gente. Houve momentos caóticos, com empurra-empurra e desespero. Fiquei com medo de ser pisoteada, mas me preocupei mais com as pessoas que desmaiaram durante o bloco.

Os desmaios foram, de fato, frequentes. Apesar da previsão de chuva no fim da tarde, o bloco começou perto do meio-dia, sob céu aberto. A reportagem acompanhou dezenas de atendimentos: algumas pessoas foram carregadas até pontos de emergência após ficarem desacordadas, e outras apresentavam vômitos ou tontura, atribuídos ao calor, à bebida e à superlotação.

O acúmulo de problemas atrasou o desfile do trio patrocinado pela cervejaria. Para evitar agravamento da situação, o Acadêmicos do Baixo Augusta, que sairia às 16h, adiou o seu início.

Acesso proibido

Em nota, a prefeitura de São Paulo afirmou que o “recorde de público em bloco na Rua da Consolação” levou à liberação das vias de acesso como áreas de escape e à retirada de gradis para melhorar a mobilidade. As autoridades também passaram a vetar o acesso de novas pessoas à região, e a Polícia Militar chegou a recomendar, nas redes sociais, que se evitasse o local — ou seja, parte do centro paulistano ficou “fechado” para entrada por um período.

“A prefeitura informa ainda que os postos médicos operaram para o atendimento das pessoas que procuraram o serviço. A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) mantém postos na região para atendimento dos foliões. Não houve ocorrência grave”, diz a nota.

Problemas semelhantes de superlotação também marcaram o bloco que levou Ivete Sangalo a São Paulo na véspera. Segundo a Polícia Militar, a cantora reuniu mais de 1,2 milhão de pessoas no entorno do Parque do Ibirapuera, na Zona Sul. A apresentação foi interrompida diversas vezes, e Ivete chegou a ficar vários minutos sem cantar enquanto a ordem era restabelecida.

A PM chegou a desaconselhar a concentração de público na região, diante da realização de vários eventos em um curto intervalo de tempo. No mesmo dia, além do show de Ivete, ocorreram no Ibirapuera os blocos Forrozin, comandado por Mariana Aydar, e Bicho Maluco Beleza, de Alceu Valença.

PMs fantasiados

Além dos dois megablocos, a Rua da Consolação concentrou centenas de ambulantes, tanto regularizados quanto irregulares. A presença ostensiva dos vendedores contribuiu para o estreitamento da via e gerou confusão, ao dificultar a circulação dos foliões.

Como o bloco era patrocinado por uma única marca de cerveja, parte do público optou por levar bebidas próprias. Era comum ver bolsas com sacolas de gelo para resfriar destilados e drinques, além de petiscos como amendoim, batata e espetinhos embrulhados em papel-alumínio.

Com a alta demanda, comerciantes que mantiveram seus estabelecimentos abertos improvisaram cartazes com promoção de bebida e cobravam até R$ 5 para usar o banheiro. Embora a prefeitura tenha instalado banheiros químicos, muitos estavam distantes e de difícil acesso devido à lotação.

Para combater a violência, PMs circularam fantasiados. No sábado, vestidos como ETs, agentes prenderam suspeitos de furto de celular e venda de bebida adulterada no cortejo de Ivete. Ontem, agora de traje dos caça-fantasmas, os policiais também capturaram suspeitos de furto. (*Da CBN)

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