• 2 de novembro de 2025

Depois da festa

foto: Marcos Santos/Ag. Pará

Belém vive um momento de visibilidade, um tempo inédito de grande efervescência. A cidade voltou ao centro das atenções políticas, culturais e midiáticas do país. Artistas desembarcam, hotéis estão cheios, ruas ganham novos sons e cores. O presidente da República despacha daqui, ministros percorrem bairros, jornalistas de todo o Brasil registram o cotidiano da capital paraense.

O país olha para o Norte com o interesse e o respeito que há muito faziam falta. Mas até quando? E depois? É preciso ir além da euforia. A COP não deve se assemelhar a um estado de embriaguez, porque depois de uma farra vem a ressaca. Quando os refletores se apagarem e o calendário de eventos se encerrar, o que restará?

Belém conhece bem o silêncio do poder público e as longas décadas de ausência de políticas estruturantes. Foram anos de descaso que deixaram marcas visíveis em sua infraestrutura, na mobilidade, na cultura e na autoestima de quem vive aqui.

Agora, quando a cidade finalmente ocupa o centro do mapa do Brasil, e a ribalta do planeta, não se pode permitir que essa conquista se dilua – feito a chuva escorrendo pelos telhados de barro e secando nas pedras de lioz.

Nada do que acontece hoje seria possível sem uma ampla força-tarefa. O trabalho de servidores, gestores, produtores culturais, artistas e empreendedores tem garantido que Belém esteja preparada para viver esse novo ciclo. Houve empenho, coordenação e orgulho coletivo. Esse esforço merece ser celebrado.

Mas também precisa se converter em política de continuidade, e não em esforço pontual movido pelo calendário da COP30. Não se pode transformar a conferência em espasmo, um derradeiro orgasmo de um corpo cansado.

É crucial que não se varram para baixo do tapete as demandas históricas de Belém, para que o impacto social e econômico da COP não seja efêmero, como um flash espocando sobre as celebridades que passam no tapete vermelho do evento.

Construir um legado efetivo significa apostar em um planejamento urbano integrado, que melhore a mobilidade e a infraestrutura sem esquecer o respeito ao meio ambiente e à cultura local, o que é papel para bons gestores.

O verdadeiro legado de um grande evento não está nas obras emergenciais nem nas manchetes passageiras. Ele se constrói na capacidade de manter viva a energia que o acontecimento desperta. Significa também reconhecer, de forma permanente, a importância estratégica de Belém para o país e para a Amazônia.

É depois da festa que começa o maior desafio. Que Belém siga no centro das atenções, não apenas como cenário de grandes encontros, mas como protagonista de uma nova fase do desenvolvimento nacional. O Brasil precisa olhar para o Norte com mais compromisso do que curiosidade. E Belém mostrou, com força e maturidade, que está pronta para liderar esse caminho.

O mais importante triunfo da COP será quando, depois da festa, Belém continuar a brilhar, inspirando um futuro que não se apaga feito os jogos de luzes de um arraial. Mas se fortalece a cada dia, sustentável e inesgotável, graças à luz de sua própria grandeza.

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